Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

Chema Madoz e a fotografia surrealista

Amanda Leite comenta sobre a obra instigante do fotógrafo espanhol, um dos mais importantes expositores da fotografia atual de seu país, com projeção internacional

por Revista FHOX Publicado há 1 semana atrás | por Amanda M. P. Leite

Amanda M. P. Leite[1]

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O famoso fotógrafo da cidade de Madrid (Espanha), Chema Madoz[1] é conhecido mundialmente como “O Dalí da fotografia”. Madoz brinca com o deslocamento de objetos de seu uso habitual. Um artista de projeção internacional cuja marca é capturar e manipular objetos cotidianos na tentativa de dar a eles novos usos, sentidos e funções. Aliás, Madoz é um inventor de metáforas visuais, capaz de transformar o trivial em algo incomum. E olha que chegar à simplicidade deste fotógrafo é um desafio para muitos entusiastas da fotografia do tempo presente! Suas imagens (em sépia ou preto e branco), criam formas inusitadas, lançam o espectador à deriva, convidam a experimentar outras dimensões e pensamentos.

Madoz é um fenômeno no universo da fotografia, sua obra é conceitual e tem inspirações surrealistas. O fotógrafa se aventura nas estruturas visuais da imagem, mostra-se aberto a experimentação. Manipula, corta, cola, rasura a fotografia gerando em nós múltiplas sensações. Objetos do cotidiano desvinculam-se de um sentido original para provocar em nós percepções perenes. São objetos propositalmente manuseados para movimentar a fotografia por perspectivas nada representativas.

A manipulação desnaturaliza o real, fragmenta e distribuí a cena/objeto a outros contextos. O vestígio ou a proposta descontínua lança a imagem a outro lugar e tempo. O fotógrafo borra a fronteira entre realidade e ficção para propor uma escrita fotográfica diferenciada. As imagens de Madoz desequilibram o olhar. Não há uma marcação espacial e temporal, ao contrário, percebemos o desprendimento da imagem e/ou o deslocamento do objeto/sujeito.

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O que Madoz faz é um tipo de enigma visual a partir de natureza morta. Uma estética dúbia em que a ideia de representação da realidade é subvertida pelo questionamento do par emprego/sentido dos objetos fotografados. Entramos em um microcosmo onde as composições fotográficas ampliam o olhar e também as leituras. São capturas que expandem o limite da aparência para outras dimensões – o jogo, as sensações, a fantasia, o ilusionismo – uma fotografia plural, liberta de gêneros definidos.

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A marca do trabalho de Madoz é o contágio de diferentes elementos estéticos. É justamente o cruzamento entre a pintura e a fotografia, a criação da ficção a partir de objetos do cotidiano, a composição de híbridos, a fotomontagem, as instalações plásticas que potencializam pensar sobre o aperspectivismo[1] presente em suas fotografias. O aperspectivismo é justamente postulado por meio da multiplicação das perspectivas provindas das personagens e objetos. A eliminação da perspectiva central implica na fusão de tempos e espaços. Para além da multiplicidade de perspectivas, há a inserção simultânea de eventos paralelos em um mesmo espaço de tempo.

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Madoz trabalha com o imaginário em busca de uma interpretação mais livre, menos enraizada e não localizada. A virtude de sua estética (livre de enquadramentos específicos) oportuniza o devaneio sobre imagens sem tentar compreender o estilo de Madoz ou a “mensagem” que a fotografia pode narrar. O que vemos são pontos de fuga presentes no campo de tensão do observador. Assim como no aperspectivismo, suas fotografias apresentam a uma dinâmica própria, jogam com a ruptura de uma perspectiva dada e datada. As composições dão lugar a leituras ambíguas e polifônicas.

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Madoz, em algumas fotografias, mostra a fixação por determinados objetos que se repetem em distintas composições. O uso de palitos de fósforos é o que me chama mais a atenção, talvez por serem objetos tão simples ou quase banais no cotidiano. O fotógrafo captura uma mandala, faz o desenho de um sol (que de tão quente queima os palitos quase que por inteiro), fotografa um termômetro (que na medida em que a temperatura aumenta parece inflamar ainda mais o palito), desenha a textura da madeira com o calor de um palito queimado e simula espermatozoides com palitos retorcidos. Madoz busca a descontinuidade da cena, algo que suavize a distância entre os tempos da captura e seus aforismos.

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O fotógrafo se apropria da realidade para tomá-la enquanto elemento de criação não representativa. Sem dúvida seus registros superam os limites do enquadramento rumo ao encontro de outra estética. Por isso é atraente propor outros modos de olhar e lidar com suas imagens. Não há ordem linear radical, nem palavra última educativa. Há apostas. Riscos. Travessias. Ex-posição. Ou um saber avesso à recognição. Uma tentativa de “desrealização” que envolve a recusa de copiar a realidade ou fazer o útil se realizar, mas extrapolar a moldura para onde for possível e desejável. Pelas fotografias surrealistas de Madoz entramos em contato com o universo dos sonhos, da imaginação, dos quereres, das sensações e…

Veja mais em: www.chemamadoz.com 

Referência:

LEITE, Amanda M. P. Fotografias para ver e pensar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2016.

[1] Publiquei um artigo que explora a ideia de aperspectivismo estabelecendo diálogo com a produção do filósofo Friedrich Nietzsche. Fotografia e perspectivismo: o que Nietzsche diria? Disponível em: http://oguari.blogspot.com.br/2013/01/fotografia-e-perspectivismo-o-que.html

Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

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