Registros de fotógrafo e relatos da história de mulher que reencontrou a família após 40 anos vira l

No dia 6 de abril, o fotógrafo Tiago Coelho e a autora Ana Sousa Werner lançam o livro Dona Ana, às 19h, no Barraco Cultural, em Porto Alegre (RS), com sessão de autógrafos iniciada uma hora antes. Selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2019-2020, o projeto registra o reencontro de Ana com seus familiares após 40 anos sem vê-los.

“Dona Ana é uma história de esperança, busca pelo passado, resgate de origens, reencontros, amor, paixão e fé, que também reflete a complexidade das relações sociais que temos aqui dentro do Brasil”, explica Coelho.

Foram quatro mil quilômetros percorridos pelos dois, há 12 anos. Na publicação, as imagens clicadas por Coelho são complementadas por pautas desenhadas a caneta pela autora, nas quais escreveu, de próprio punho, a sua história. São 92 páginas, 500 exemplares editados pela Austral Edições, que estão à venda em https://austral.ink/dona-ana, por R$89.

Tiago Coelho

Filha de pais lavradores, Ana cresceu junto aos 10 irmãos debaixo de pés de bananeira, sob a supervisão da mãe e da avó. Aos oito anos, trabalhava na roça plantando algodão, milho, cana e macaxeira. Foi aos 17 que resolveu ir embora para a capital paraense e avisou só a mãe, hoje falecida. De lá, passou por São Paulo, onde constituiu família e teve três filhos. Em seguida, mudou-se para Santo Antônio da Patrulha (RS).

Sem saber ler e escrever, perdeu totalmente o contato com amigos e parentes. Essa realidade só mudou no Sul, onde se matriculou em um curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e se formou no Ensino Fundamental. “Foi por necessidade. Não saber ler nem escrever é como se a pessoa fosse cega e não pudesse enxergar as coisas”, afirma ela.

Tiago e Dona Ana se conhecem desde que ele tinha seis anos de idade e ela 49, quando foi trabalhar na casa dos pais do então menino como babá. Em 2010, depois de receber, inesperadamente, um resgate do FGTS, Ana, esperançosa por reencontrar os irmãos, decidiu que era hora de resgatar suas origens e voltar à terra natal, localizada no povoado Vila do Japim, município de Viseu, a 320 quilômetros de Belém do Pará e à beira do Rio Piriá.

Para isso, pediu a Coelho que fizesse um retrato da família que constituíra no Rio Grande do Sul, para o caso de encontrar a sua original do Norte. “Foi quando pedi permissão para ir junto ajudá-la na busca e para documentar o percurso, tendo a fotografia como nossa companheira”, conta ele. “Me interessa muito a ideia de imaginação e relato. Escolhi a fotografia como ferramenta para estudar, conhecer e entrar em diferentes realidades, para construir contatos pessoais e conexões mais profundas com temáticas e personagens.”

A viagem

Os dois partiram para a viagem: avião, dois ônibus e muita estrada de terra. Dona Ana dava suas impressões sobre o caminho, contava sobre o entorno, as comidas, a fisionomia das pessoas.

No segundo meio de transporte, quando comentavam sobre a busca, uma desconhecida os interpelou: “Você é a Ana, a falecida?”. Foi quando ela descobriu que todos achavam que havia morrido, menos o seu irmão Albino, que tinha feito uma promessa de orações e sessões de jejum para ela voltar. “No nosso reencontro choramos que só faltava desmaiar. A máquina (câmera fotográfica) até trancou, parou de funcionar”, conta.

“Foi o ápice!”, lembra Coelho. “Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Todos abraçados, em silêncio. A câmera voltou a funcionar e fiquei ali, registrando o momento, e depois os outros dias.” O fotógrafo ressalta que, em 2010, não havia energia elétrica naquele povoado e sendo a tradição oral a forma de passar os saberes entre os familiares e na Vila.

“É interessante, porque, ao ouvir uma pessoa, sentimos a sensação dela sobre a história, cujos significados são ricos justamente pelas interpretações dos casos e pela linguagem que cada uma usa para reconstruir a relação de importância, mistério e felicidade, a maneira de perpetuar”, diz ele. “Uma mesma história que me atravessou, da onça que perseguia a família, foi contada de maneiras diferentes por cada irmão, Adaltina, Albino e Ana”, continua. “Como era a onça que perseguia as crianças? Ela perseguia mesmo ou só ouviam os ruídos dela? O pai matou a onça? Não? A onça era um bebê onça?”, indagou Tiago.