Pelo direito de estudar

Ramin Shams Ceo da School Picture, uma das maiores empresas da fotografia brasileira. Créditos: Arquivos School Picture


Ao convidar um integrante da School Picture para compor um debate num evento organizado pela FHOX, nossa equipe foi surpreendida pelo desejo do dono e fundador da empresa, Ramin Shams de ser ele mesmo o representante na conversa, daquela que é a maior empresa da América Latina no setor de recordação escolar. Sob suas quatro marcas estão cerca de 750 mil alunos sendo atendidos de forma exemplar, por uma equipe motivada e apaixonada, de mais de 400 colaboradores. Curioso Ramin empreender no setor de educação, o que para ele tem um sabor muito especial, já que sua trajetória é fortemente marcada pelo impedimento de estudar no seu país natal, o Irã, o que o levou a se refugiar no Brasil. Tudo por conta da sua religião, a Fé Bahá’í. Uma expressão minoritária e progressista num país de maioria muçulmana, que até hoje segue sendo sufocada pelo regime autoritário dos Aiatolás. Numa cruel atitude que apenas demonstra a força, o valor e a importância de estudar, o regime barra o acesso das minorias à educação. Apesar da adversidade que enfrentou numa fuga digna de filme, Ramin fala de tudo com serenidade: “Gostaria de devolver um pouco do que recebi e por isso acredito que minha história pode inspirar e motivar todos que buscam forças para vencer as adversidades da vida”. Veja a seguir essa fabulosa jornada de amor, fé, superação e empreendedorismo.

Ramin com Tálita Barão, Gerente de Produto do IsCoolApp


FHOX – O senhor tem uma história incrível de superação: o integrante de uma minoria oprimida que precisa deixar seu país para poder estudar em outro continente e se torna um dos maiores empresários do país, certamente o maior do seu setor. Agora decide servir de inspiração a outros empresários e principalmente a todos que querem estudar e que precisam se superar, é isso ?

Ramin: Primeiramente, obrigado por aceitar o meu pedido, eu acho que tenho uma dívida com o mercado fotográfico e com o Brasil, pela oportunidade que tive nesses 34 anos neste país. Foi uma experiência ímpar poder exercer o que consegui carregar com a minha mochila vindo do Irã. O aprendizado em fotografia, estúdio, iluminação, e operação de lab preto e branco. Fazia isso com o meu pai desde criança. Ele, dois anos depois de mim, também teve que fugir com minha mãe e meu irmão mais novo. Fechou um negócio com 45 anos de tradição, o primeiro estúdio da cidade, inaugurado pelo prefeito.

FHOX – Qual cidade?

Ramin: Chama Bojnord (soletrou). Hoje é a capital de um Estado no nordeste do Irã, próximo da fronteira com a Rússia. E ali numa região montanhosa, está uma das maiores cidades, em termos territoriais do país, com cerca de 720 aldeias no seu entorno. O meu pai fechou esse estúdio e saiu de lá em 1988, eu saí em 1986, com 21 anos. Até então, atuava com o meu pai desde criança, tirando uma grande quantidade de retratos de gente que vinha fazer foto 6 por 4, no estúdio da família. O meu pai foi um dos grandes fotógrafos sociais da região do Norte do Irã. Fotografou o Xá Reza Pahlavi, família do rei do Irã antes de 1979, e era fotógrafo de confiança da área social de todos os órgãos do governo que tinham festas. Ele era o fotógrafo oficial. Usávamos Rolleiflex 120. Então, depois, quando terminei o ensino médio, isso coincidiu com a reforma educacional que o atual governo islâmico, fez no Irã. E nós, que éramos das minorias, começamos a ser perseguidos. Antes também existia um pouco de perseguição sistemática, mas muito suave, porque o próprio Xá não era contra os Bahá’ís. Mas os sacerdotes muçulmanos que tinham grande influência no governo se incomodavam com a fé Bahá’í, pois o pensamento Bahá’í, investia muito contra as tradições antigas dos sacerdotes. As primeiras escolas de meninas, as primeiras escolas de meninos no Irã foram constituídas pelos bahá’ís, sendo que era uma religião recém-nascida, fundada em 1844 e desde o início perseguida. Em 1900, o Irã tinha mais de 30 escolas bahá’ís no país, e eram nelas que os muçulmanos mandavam os filhos estudarem. E a primeira vez que meninas podiam ir para a escola também eram em escolas Bahá’ís, porque as mulheres sempre foram oprimidas no Irã com tradição islâmica. Surgiram muitos grandes nomes da comunidade Bahá’í dentro do Irã ajudando o Irã. Grandes arquitetos, engenheiros, professores de universidades, mulheres que fundaram os primeiros estudos na área da física, da astrologia e etc. Hoje o monumento do Irã, que é Praça de Azadi, na região norte de Teerã, foi inaugurado na época do Xá Reza Pahlevi, projetado por um jovem de 24 anos bahá’í, recém-formado. Se você tiver qualquer manifestação em Teerã, acontece ali. Os dois primeiros empresários iranianos, número 1 e número 2, eram bahá’ís. O número 1 tinha 72 companhias. Grande parte do PIB do Irã era gerado por esses bahá’ís. Toda essa contribuição bahá’í, gerou muito ciúme aos olhos dos sacerdotes muçulmanos, dos aiatolás. Então, em 1979, quando assumiram o poder, o primeiro plano deles era extinguir os bahá’ís da face do Irã. Viviam no Irã algo em torno de um milhão de bahá’ís. E aí um dos programas do governo, não apenas para controlar a educação e, de certa forma, estrangular culturalmente a comunidade bahá’í, era não permitir que acessassem as faculdades e universidades. Isso segue até hoje, 40 anos depois. 

School Picture Recordações Escolares | LinkedIn