O trabalho autêntico na fotografia de família de Raquel O’Czerny

A fotógrafa Raquel O’Czerny atua em São Paulo e vive de fotografar famílias e suas histórias marcantes. Um trabalho sensível e como ela mesmo disse: “é movido por um propósito genuíno”. 

Ela retrata seguindo o estilo documental e com atuação abrangente dentro do segmento da fotografia de família. Ou seja, fotografa famílias, gestantes, partos e eventos. Raquel traz essa preocupação em contar as histórias como elas ocorrem e o resultado disso se expressa nas fotos criadas por ela.

Na entrevista para FHOX ela contou sobre sua história, estilo e os desafios e da experiência de atuar no Grupo de Estudos do Alfabetismo Visual e da FDF. Confira. 

FHOX – Como começou na fotografia?

Raquel O’Czerny – Acho que a fotografia como profissão foi tipo um chamado, porque na verdade ela sempre muito presente na minha vida. Veio do meu avô, que dentre outras coisas, fotografava, e estava no meu pai, que juntamente com a profissão de analista de sistemas, filmava eventos. Minha infância foi muito registrada e tenho muitas fotografias de quando era criança, o que está totalmente ligado com o que eu faço hoje. 

Depois de 2 anos morando nos EUA, me tornei professora de inglês, e por alguns anos me dediquei muito à área da educação. Fui bastante feliz por muito tempo, depois trabalhei alguns poucos anos como coordenadora em uma escola de idiomas e por um tempo foi legal também. Mas passou. Cansei. Resolvi buscar algo novo. Comecei buscando uma saída; outra alternativa de trabalho, atrás de algo que me desse mais prazer e mais satisfação pessoal, movida por um propósito genuíno. E foi aí que mergulhei na fotografia. Minha base foi formada na Escola Panamericana de Arte, e aí foi o começo, onde tive um pouco de conhecimento em diferentes áreas da fotografia.  De lá pra cá foi um longo percurso, com algumas pausas entre as minhas duas gestações, muitos cursos e experimentações. Mas desde então, depois que entrei não saí mais.

FHOX – Como foi viver de fotografia de família desde que a pandemia começou?

Raquel O’Czerny – Como minha renda da fotografia vem muito mais dos ensaios do que dos eventos, a pausa não foi tão longa. Durante um tempo sim, naqueles primeiros meses, fiquei totalmente parada. Mas aos poucos os ensaios documentais foram sendo mais procurados. Os clientes já queriam a fotografia do cotidiano, eu nem precisava me esforçar para convencê-los que aquele registro poderia ser mais interessante do que um registro dirigido e com a casa em ordem – rs. Senti que as famílias em casa acabaram prestando atenção em coisas ordinárias que não eram percebidas no corre corre fora de casa do dia a dia. E vários sentiram essa necessidade de registrar. Estava eu lá, de máscara, sem sapato, tomando todos os cuidados, fotografando o isolamento de algumas famílias. O que foi bom pro meu bem estar mental também. 

De qualquer forma, teria sido muito mais difícil se toda a minha renda familiar viesse da fotografia, o que não é o caso, visto o meu marido trabalhar em uma área que foi pouco afetada pela pandemia.

FHOX – Como define seu estilo e o que busca nos trabalhos que faz?

Raquel O’Czerny – Já experimentei diferentes áreas da fotografia. Algumas apenas através de cursos, outras nas quais tive alguma experiência profissional. Engraçado que hoje percebo que sempre tive essa pegada documental, mas quando comecei a estudar, não validava a minha forma de enxergar. “É muito simples, não vende. As pessoas querem fotos esteticamente perfeitas e com a cara da família do comercial de margarina”- acreditava. Aí eu ia atrás de alguns modismos, ou tentava me encaixar onde eu não cabia. Ficava insatisfeita, não me reconhecia, não me identificava. Foi um processo perceber que a minha fotografia era aquela, lá de trás. E que aquele estilo de fotografia seria o meu foco de estudo e aperfeiçoamento. 

Hoje me defino como uma fotógrafa documental. Comercialmente de família, englobando ensaios, partos, eventos; mas de forma autoral não só de famílias, mas de pessoas. Eu busco registrar a beleza do comum, do cotidiano. Daquilo que com pressa, muita gente não vê. Ou quando vê, precisa de alguém de fora pra poder ser incluído ali, no registro daquele momento. Estou ali observando e registrando, sem direção, as relações, a rotina, os detalhes… enfim, tudo aquilo que me chama a atenção. É o meu ponto de vista.