O cérebro (e a caminhada) de Guido Anselmi, por Paul Ronald

Até o dia 16 de março, o MAM Rio apresenta a exposição “O cérebro (e a caminhada) de Guido Anselmi”, que reúne 70 ampliações fotográficas de Paul Ronald (1924–2015) – celebrado fotógrafo de cena francês, que teve sua trajetória ligada ao cinema italiano – com registros dos bastidores da produção e filmagem de “” (1963), obra-prima de Federico Fellini (20 de janeiro de 1920, em Rimini, Itália – 31 de outubro de 1993, em Roma). 

Paul Ronald

Federico Fellini, retrato de Paul Ronald


As fotografias pertencem ao colecionador Antonio Maraldi, que as recebeu em doação do próprio Paul Ronald no final dos anos 1990. O conjunto de imagens é inédito fora da Itália, e a exposição integra as celebrações dos cem anos de nascimento deste gênio da arte cinematográfica, em uma realização conjunta do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Instituto Italiano di Cultura do Rio de Janeiro, Embaixada da Itália no Brasil, Consulado da Itália no Rio de Janeiro, Comune e Cineteca de Rimini, e Centenário Fellini.

Hernani Heffner, curador da exposição, explica que o título se refere ao alter ego de Federico Fellini em “8½”, o cineasta Guido Anselmi, “cuja consciência/inconsciência forma a matéria-prima do que se vê e ouve ao longo do filme”. As 70 imagens foram selecionadas entre os 2.200 negativos que registraram os bastidores dessa produção. 

“Tanto as circunstâncias peculiares da realização, quanto o volume de imagens e a documentação mais atenta do processo de filmagem são atípicas mesmo para um cineasta que vinha se consolidando como ‘único’”, comenta Hernani. 

“Em uma trajetória recente marcada por premiações importantes como a Palma de Ouro por ‘A doce vida’ (1960), e por uma filmografia memorialística, ‘8 ½’ surge como um retrato expandido de um momento de crise pessoal, por conta da dificuldade em encaminhar um novo filme, e do mundo, devido à crise dos mísseis nucleares instalados em Cuba”, observa o curador. 

Leia também: Araquém Alcântara apresenta “Ibitipoca – Minas que transformam”. 

Ele ressalta que “longe de ser um mero delírio casual ou uma narrativa cifrada do id, ‘8 ½’ é o ingresso definitivo de Fellini no cinema moderno, uma incursão em torno do fazer cinematográfico não convencional, moldada por experimentações técnicas como o quadro esférico (a nascente proporção 1.85:1) e rigor de realização nos diferentes setores da produção de que nos dá conta justamente o presente conjunto de fotografias”. 

Hernani Heffner lembra que “o Oito e meio do filme indica que Fellini considerava que tinha dirigido o equivalente a oito longas metragens e meio, um episódio de um longa”.

Patrimônio imagético da humanidade 

Para Lívia Raponi, diretora do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, “o gênio criativo de Federico Fellini e sua obra escapam às definições, tamanha é sua riqueza e complexidade:  sem dúvida, o mundo que o mestre criou com suas películas entrou a fazer parte, de maneira indelével, do patrimônio imagético da humanidade. Além de representar uma instância absolutamente inovadora do ponto de vista técnico e estético e um marco fundamental da história do cinema mundial, o artista e intelectual ultrapassou a esfera cinematográfica para tornar-se, pela força de suas imagens e de sua poética, um verdadeiro embaixador de nossa terra e de nossa cultura no exterior”, conta.

Ela continua afirmando que “a Itália que ele inventou, e os personagens que ele criou através de seus filmes, ainda hoje fazem parte de nossa identidade e também do imaginário coletivo sobre nosso país e sobre os italianos no mundo”.  

“Foi uma grande satisfação poder realizar, junto ao MAM e em seus lindos espaços, esta iniciativa de tão elevado valor artístico e cultural. A exposição inaugura, no Brasil, uma série de eventos realizados pelos Institutos Italianos de Cultura e pela rede diplomático-consular italiana por ocasião do centenário do diretor, que acontecerão ao longo do ano”, conclui, Raponi.

Em dezembro de 2020, o material produzido por Paul Ronald será doado por Antonio Maraldi ao Museu Fellini, em sua terra natal, Rimini.

Cenas dos bastidores 

Paul Ronald