Livro com registros de fotógrafo e relatos da história de mulher que reencontrou a família após 40 a

Contemplado pelo Rumos Itaú Cultural, o livro Dona Ana, é lançado na IMAGINÁRIA_festa do fotolivro pelo fotógrafo Tiago Coelho, que acompanhou a personagem em viagem do Rio Grande do Sul para a sua terra natal, no interior do Pará, a fim de rever seus familiares e amigos, de quem havia perdido o contato e que achavam que ela estava morta. A obra conta com fotografias dele, tiradas durante todo o percurso, e texto dela, escrito à mão.

No dia 15 de julho, o fotógrafo Tiago Coelho lança o livro Dona Ana, às 18h, na IMAGINÁRIA_festa do fotolivro, que acontece no Edifício Vera, no Centro Histórico de São Paulo, entre os dias 14 e 17. Selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2019-2020, o projeto registra o reencontro de Ana com seus familiares após 40 anos sem vê-los. O volume já foi lançado no Rio Grande do Sul, estado de origem do autor, em abril deste ano.

“Dona Ana é uma história de esperança, busca pelo passado, resgate de origens, reencontros, amor, paixão e fé, que também reflete a complexidade das relações sociais que temos aqui dentro do Brasil”, explica Coelho.

Foram quatro mil quilômetros percorridos pelos dois, há 12 anos. Na publicação, as imagens clicadas por Coelho são complementadas por pautas desenhadas a caneta pela autora, nas quais escreveu, de próprio punho, a sua história. São 92 páginas, 500 exemplares editados pela Austral Edições, que estão à venda em https://austral.ink/dona-ana, por R$89.

Filha de pais lavradores, Ana cresceu junto aos 10 irmãos debaixo de pés de bananeira, sob a supervisão da mãe e da avó. Aos oito anos, trabalhava na roça plantando algodão, milho, cana e macaxeira. Foi aos 17 que resolveu ir embora para a capital paraense e avisou só a mãe, hoje falecida. De lá, passou por São Paulo, onde constituiu família e teve três filhos. Em seguida, mudou-se para Santo Antônio da Patrulha (RS).

Sem saber ler e escrever, perdeu totalmente o contato com amigos e parentes. Essa realidade só mudou no Sul, onde se matriculou em um curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e se formou no Ensino Fundamental. “Foi por necessidade. Não saber ler nem escrever é como se a pessoa fosse cega e não pudesse enxergar as coisas”, afirma.

Tiago e Dona Ana se conhecem desde que ele tinha seis anos de idade e ela 49, quando foi trabalhar na casa dos pais do então menino como babá. Em 2010, depois de receber, inesperadamente, um resgate do FGTS, Ana, esperançosa por reencontrar os irmãos, decidiu que era hora de resgatar suas origens e voltar à terra natal, localizada no povoado Vila do Japim, município de Viseu, a 320 quilômetros de Belém do Pará e à beira do Rio Piriá.

Para isso, pediu a Coelho que fizesse um retrato da família que constituíra no Rio Grande do Sul, para o caso de encontrar a sua original do Norte. “Foi quando pedi permissão para ir junto ajudá-la na busca e para documentar o percurso, tendo a fotografia como nossa companheira”, conta ele. “Me interessa muito a ideia de imaginação e relato. Escolhi a fotografia como ferramenta para estudar, conhecer e entrar em diferentes realidades, para construir contatos pessoais e conexões mais profundas com temáticas e personagens.”

A viagem

Os dois partiram para a viagem: avião, dois ônibus e muita estrada de terra. Dona Ana dava suas impressões sobre o caminho, contava sobre o entorno, as comidas, a fisionomia das pessoas.

No segundo meio de transporte, quando comentavam sobre a busca, uma desconhecida os interpelou: “Você é a Ana, a falecida?”. Foi quando ela descobriu que todos achavam que havia morrido, menos o seu irmão Albino, que tinha feito uma promessa de orações e sessões de jejum para ela voltar. “No nosso reencontro choramos que só faltava desmaiar. A máquina (câmera fotográfica) até trancou, parou de funcionar”, conta.

“Foi o ápice!”, lembra Coelho. “Ninguém acreditava no que estava acontecendo. Todos abraçados, em silêncio. A câmera voltou a funcionar e fiquei ali, registrando o momento, e depois os outros dias.” O fotógrafo ressalta que, em 2010, não havia energia elétrica naquele povoado e sendo a tradição oral a forma de passar os saberes entre os familiares e na Vila.

“É interessante, porque, ao ouvir uma pessoa, sentimos a sensação dela sobre a história, cujos significados são ricos justamente pelas interpretações dos casos e pela linguagem que cada uma usa para reconstruir a relação de importância, mistério e felicidade, a maneira de perpetuar”, diz ele. “Uma mesma história que me atravessou, da onça que perseguia a família, foi contada de maneiras diferentes por cada irmão, Adaltina, Albino e Ana”, continua. “Como era a onça que perseguia as crianças? Ela perseguia mesmo ou só ouviam os ruídos dela? O pai matou a onça? Não? A onça era um bebê onça?”, indagou Tiago.

A história a que o fotógrafo se refere e que o deixa cheio de curiosidades, permeia seu imaginário desde a infância, quando Ana compartilhava lendas do folclore brasileiro e crenças regionais, as quais cresceu ouvindo. Para ele, Dona Ana sempre foi uma boa contadora de histórias repletas de onças, cobras, macacos, tatus, rios e florestas, que pareciam saídas diretamente de uma fábula.

O livro

A primeira versão do trabalho foi publicada por Coelho em 2013, no formato de zine. Na época, Dona Ana reclamou, dizendo que havia muitas páginas em branco e que o resultado não chegava perto de contar a sua história de forma satisfatória. Confirmando o atestado de boa contadora de histórias, feito por Coelho, ela mesma, com a caneta em mão, criou pautas nos espaços que estavam em branco no livro e redigiu a própria história. É desta forma que agora ele é lançado.

O texto percorre memórias de infância, a vida na roça, a mudança para a cidade, o estranhamento do frio quando chegou na região Sul do país. Também fala sobre as transformações internas pelas quais passou, incluindo o fato de não gostar de lavar roupa e cozinhar, atividades que agora faz com prazer: “Meu prato mais famoso é a feijoada, também faço uns bifinhos bem bons”, diz orgulhosa.