Fotografia: adversidades e personalidade no Cinema Novo Brasileiro

Os desafios que inspiraram a estética e atitude de um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil

Para celebrar o Dia do Cinema Brasileiro, nada melhor do que relembrar um dos mais impactantes movimentos cinematográficos. Responsável por inaugurar grande parte das tendências que se perpetuam até os dias atuais, o Novo Brasileiro foi um movimento artístico permeado pelo desejo de identidade, intrínseco à cultura brasileira. Foi por meio deste desejo que a fotografia do Novo se desenvolveu como um admirável experimento que continua merecendo atenção e estudo dos entusiastas.

O movimento

O Novo surgiu num cenário pós Segunda Guerra, onde o hollywoodiano e o excepcionalmente norte americano dominavam os padrões estéticos do audiovisual. O movimento, discutivelmente, se iniciou entre os anos 50 e 60, teve três fases e foi chave no desenvolvimento da atual identidade cinematográfica brasileira.

“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. A frase de Glauber Rocha – autor de Deus e o Diabo na Terra do Sol, um dos filmes mais consagrados do movimento – foi incorporada de muitas maneiras e reflete a atitude do movimento.

Os jovens cineastas do Novo Brasileiro eram impulsionados por uma estética unicamente brasileira aliada a uma mensagem crítica e quase jornalística. Eles utilizaram de muita criatividade e inventividade para provar que as produções podiam ser feitas mesmo sem muitos recursos ou aprovação, enfrentando sobretudo a censura do período da ditadura militar.

A inventividade na fotografia do Cinema Novo Brasileiro

Um expoente do movimento, pioneiro em técnicas que hoje são padrão mundial, certamente foi o fotógrafo Edgar Brasil. No revolucionário Limite (1930) de Mário Peixoto, seu papel como diretor de fotografia foi desafiado de tal maneira que inspirou a atitude que mais tarde seria tomada pelos demais diretores e cineastas do Novo.

No barco ocupado pelo diretor Peixoto e o resto da equipe de 5 pessoas, Brasil fazia testes de filmagem durante o dia e revelava as películas à noite. Nestas condições, carregando o espírito da frase que mais tarde seria dita por Glauber, ele criou todo tipo de improviso e maquinação a fim de viabilizar as filmagens.

Para cenas em movimento, Brasil idealizou um andor operado por dois homens andando a passos ensaiados e o levando de maneira a estabilizar o movimento da câmera, como um steadycam faz nos dias de hoje.

Segundo Peixoto, o diretor de fotografia inventou elevadores que tinham o mesmo papel da grua moderna, maquinarias que possibilitavam travelings laterais e verticais e até mesmo o próprio estúdio no barco, onde revelava o filme.

Essa abordagem artesanal e inventiva rendeu ao filme Limite uma fotografia fluida, rica em movimento e expressão. Mais tarde, Edgar Brasil ainda viria a compor planos sequência ricos em detalhes e movimentos complicados, que se destacam em meio aos filmes da época.

Sua abordagem pode ser estudada e pode inspirar a qualquer profissional moderno. Dos recém formados na faculdade de design gráfico, aos novos jovens cineastas brasileiros, todos podem se inspirar no lema do Novo para criar arte nova.

No melhor estilo antropofágico dos modernistas, o novo devorou, acompanhou, inspirou e foi inspirado por movimentos contemporâneos como a nouvelle vague e o neorrealismo italiano. É tempo dos novos cineastas brasileiros devorarem a própria cultura a fim de encontrar a inspiração para o futuro do cinema. Assim tem acontecido, assim pode continuar.

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