Exposição une linguagens do selfie e da fotopintura, integrando o contemporâneo e a tradição

Em 2011, o fotógrafo mineiro Cyro Almeida conheceu mestre Júlio Santos, residente em Fortaleza e um dos últimos expoentes vivos da fotopintura, técnica muito difundida no interior do país ao longo do século passado, em que o artista dava cor e retoques a retratos feitos originariamente em preto e branco.

Desse encontro, que se transformou em amizade e parceria, resultou a ideia de reunirem suas linguagens para criarem obras em que o contemporâneo e a tradição se mesclassem. O fruto desse trabalho é a exposição Deslimites da Memória, que vai acontecer entre os dias 7 de março e 3 de maio no Museu Mineiro, de Belo Horizonte.

Cyro Almeida explica que as recriações de mestre Júlio foram pintadas com tinta a óleo e pastel sobre fotografias feitas por ele ao longo de 2016 e 2017. “Retratei jovens e adolescentes que performaram para uma câmera analógica de médio formato suas próprias atitudes e expressões faciais em selfies que circulam nas redes sociais”. Como resultado, há uma harmoniosa fusão entre passado e presente, como se as marcações do tempo fossem relegadas a segundo plano.

Segundo Ângela Berlinde, curadora da mostra, Cyro Almeida e Mestre Júlio “abrem uma brecha no tempo, ousando apresentar uma obra híbrida, composta de múltiplas poéticas visuais e diálogos interdisciplinares.” Os artistas apresentam a geração Z (nascidos entre meados dos anos 1990 até o início do ano 2010) com seus ousados cabelos coloridos, piercings e delineadores nos olhos, porém retratados com paletós, gravatas, vestidos estampados e outras indumentárias típicas da fotopintura no século XX.

“Nesta coleção, sentimos o redimensionar do tempo, o seu ritmo e linguagem tornam-se num híbrido encantado em que o passado convive a par com o futuro. Aqui, a imagem surge abordada sob o ponto de vista da fusão de mundos e como espaço privilegiado de união da realidade e da fantasia”, destaca a curadora.

Fotopintura

Mestre Júlio - Fotos Cyro Almeida

Mestre Júlio – Fotos Cyro Almeida


Fotopinturas tradicionalmente eram feitas a partir de retratos (muitas vezes deteriorados) enviados por famílias que gostariam de ter sua imagem recriada e dignificada. Dessa matriz gerava-se uma cópia fotográfica em preto e branco na qual eram apagados os ombros, o cabelo, a roupa e o fundo, permanecendo no papel apenas o rosto. Nessa nova cópia os fotopintores recriavam o retrato com intervenções pictóricas, destacando os olhos, eliminando as rugas, definindo os cabelos e as roupas. A técnica difundiu-se no nordeste do Brasil ao longo do século XX.

Cyro Almeida (Araxá-MG, 1984) é artista visual, fotógrafo e mestre em comunicação social. Dedica-se à figuração do território urbano nas periferias de Belém do Pará e seus habitantes, pesquisa com a qual foi contemplado, em 2015, com o XV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Em 2014 realizou a mostra individual Dandara, no Palácio das Artes, fruto de sua vivência na ocupação urbana de mesmo nome em Belo Horizonte. Publicou os livros Pequena rota do insuspeitável (2017) e Dandara (2014). Vive em Belo Horizonte.

Mestre Júlio Santos (Fortaleza-CE, 1944) dedica-se ao desenvolvimento e divulgação da fotopintura, técnica fundamental na construção da memória visual dos brasileiros, em especial na região nordeste do país. Nos últimos anos seu trabalho tem ganhado destaque em diversas exposições como a individual Interior Profundo, curada por Diógenes Moura na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2012) com itinerância no Centro de Fotografía de Montevidéu (2013). A despeito da notoriedade que seu nome vem recebendo das instituições de arte, Mestre Júlio continua atendendo pedidos de fotopinturas vindos das camadas mais populares de todo o Brasil. Em 2010 teve sua obra publicada no livro Júlio Santos – Mestre da Fotopintura (Ed. Tempo d’Imagem) por meio do programa Conexão Artes Visuais da Funarte e edição de Rosely Nakagawa. Vive em Fortaleza.