Locação, modelos, luz, orçamento, concorrência, negociação, burocracia, produção, contatos... são diversas variáveis que participam da vida dos fotógrafos publicitários que podem gerar dor-de-cabeça e síndrome do "não tenho tempo para aceitar mais trabalhos"
texto: Josie Moraes

Foto: Kiko Ferrite
No Brasil, a idéia de agenciamento não é nova, hoje já existem agentes e empresas especializadas que oferecem full services, ou seja, que participam do trabalho do fotógrafo desde a venda até a entrega do material final ao cliente. Isto abrange as funções relacionadas à prospecção de clientes, atendimento, mapeamento de mercado, contato com art buyers e agências de publicidade, administração do processo de burocracia, negociação de orçamento, contratação e coordenação de fornecedores e acompanhamento de produção. A intenção é sempre a mesma: otimizar o tempo do fotógrafo para que possa se preocupar com tarefas mais específicas do trabalho como, por exemplo, os elementos necessários para construção da fotografia com o diretor de arte.
Mas a frase clichê "agenciamento serve para que o fotógrafo se preocupe apenas com o clique" não é uma verdade. O ideal para muitos agentes é que o fotógrafo encare o trabalho com o "espírito de parceria", cujas decisões podem e devem ter influências do próprio profissional. A análise e previsão das variáveis em conjunto podem ajudar muito na hora de oferecer uma proposta honesta e justa de orçamento.
É o que pensa Marina Prado, dona de uma das maiores agências de fotógrafos do país, a MP Fotos com quase dez anos de mercado. Marina levou a bagagem em coordenação de estúdio da W/Brasil para seu empreendimento e hoje representa cinco fotógrafos de diferentes histórias e experiências, são eles: Fábio Ribeiro, Feco Hamburger, Kiko Ferrite, Thierry Des Fontaines e Rui Mendes. A vantagem do serviço para o fotógrafo é clara, mas o mercado também ganha em qualidade e agilidade de procedimentos, principalmente em grandes agências onde existem burocracias e prazos sempre apertados.
Sylvio Campos Mello, que agora está à frente do atendimento da produtora de imagens Super Studio, acredita que a maior vantagem para o mercado está na qualidade do atendimento prestado às agências, já que pode receber todo o suporte de uma equipe especializada e ter acesso rápido a detalhes e informações sobre prazos e expectativas mesmo que o fotógrafo esteja inacessível, viajando ou fazendo fotos. Hoje, além de oferecer serviço de banco de imagens, a Super Studio agencia Luis Crispino, Rodrigo Ribeiro, Christian Gaul, André Passos e ao mais novo contratado Cássio Vasconcellos.

Foto:
Aline Moraes por Rui Mendes para Vogue | Foto: Rui Mendes para Casa
Vogue | Foto: Thierry Des Fontaines para anúncio Fast Fruit
Foto:
Thierry Des Fontaines para anúncio Nike
Lá fora é diferente
Devido
ao diferente comportamento de mercado, o agenciamento de fotógrafos nos
Estados Unidos é desenvolvido de forma muito diferente do aqui no
Brasil.
Segundo Marina, o mercado da fotografia publicitária solicita muito
mais atenção do que o norte-americano. A relação é muito mais próxima e
requer um intenso acompanhamento do atendimento. "Nos Estados Unidos
compra-se linguagem. O agente manda o trabalho e o cara da agência
escolhe o que quer sem ter que ver sua cara. Quer dizer, é claro, que o
bom relacionamento conta lá também, mas o trabalho é muito mais
impessoal", comenta Marina.
O fotógrafo francês Thierry Des Fontaines, que escolheu os serviços da
agente brasileira, se divide entre trabalhos para agências nacionais e
ainda continua com reconhecimento e projeção internacional. Mesmo de
mala e cuia no Brasil, continua contribuindo para a campanha da Nike,
desenvolvida pela agência Weiden Kennedy. O processo acontece em um
intercâmbio entre Marina Prado, agentes e art buyers norte-americanos.
Recentemente, o francês fotografou para a campanha da Nike para a Copa
do Mundo de 2006.
Momento de encarar
Os
fotógrafos de publicidade renomados é que precisam de agenciamento, já
que o volume de trabalhos é maior e o ganho é compensador porque para
eles, mais do que para iniciantes, "tempo é dinheiro". ERRADO!
A hora de começar não está relacionada com a fama ou tempo de carreira
do fotógrafo e, sim, em sua visão estratégica e planejamento. Cada caso
é um caso. Botar o pé no mercado publicitário não é simples porque o
universo é restrito. Além disso, na publicidade o risco que se corre
apostando em um nome para uma campanha é muito alto.
Para Cássio Vasconcellos, que carrega uma experiência de 25 anos de
mercado e voltou a ser agenciado pela Super Studio, apesar de o mercado
publicitário ser restrito existem profissionais novos conquistando
espaço no mercado publicitário, mas ele lembra que a batalha é árdua
porque a exigência de um bom portfólio é um ponto crucial.
Foto:
Fábio Ribeiro para anúncio Antártica I Foto: Fábio Ribeiro para anúncio
Sharp
Foto:
Feco Hamburguer para anúncio Embratel | Foto: Feco Hamburger para
anúncio Semp Toshiba
Cada fotógrafo tem um motivo
especial para querer ser agenciado. A maioria porque não tem, por conta
própria, a estrutura necessária para atender uma agência de
publicidade. Uns porque não gostam de lidar com a parte da produção e
formulação de orçamentos. Outros porque não sabem ou não querem vender.
E alguns porque querem ter mais tempo para curtir a família ao invés de
ir atrás de fornecedor.
Existem fotógrafos que têm motivos especiais para não querer o
agenciamento. Cristiano Mascaro, por exemplo, explica que, apesar de
ter feito diversos trabalhos para publicidade, não está interessado em
agenciamento. Hoje está mais ligado a projetos longos, como a produção
de livros. Mascaro, que trabalha em uma linguagem mais autoral, afirma
que 100% das propostas de fotos publicitárias chegam até ele
diretamente.
No caso do profissional iniciante que quer ser agenciado, para ampliar
sua divulgação no mercado publicitário tem que se dedicar a buscar a
maior qualidade das técnicas de fotografia (luz, flash, etc.) possível
e entender que não chove trabalho. O bom relacionamento com as agências
conta muito, mas a maioria dos agentes afirma que não é o fundamental.
A questão do custo do agenciamento dentro do trabalho de fotografia
depende muito também do job
e serviço a ser realizado. Na Super Studio a cobrança é de 20% sobre os
serviços realizados. Já na MP Fotos, dependendo das variáveis, a
agência fica com 10 a 20% do valor do job.
O tal do bom portfólio
"Acho que é aquele que mostra o que você gosta de fotografar, o seu
estilo. Já pensei em fazer um bem direcionado para publicidade, mas
hoje eu mostro o meu trabalho e pronto!", Kiko Ferrite,
fotógrafo especializado em still e premiado em Cannes
"Costumo marcar um fotógrafo ou ilustrador por dia. Os portfólios ficam
na agência durante uma semana para que a criação possa conhecer o
trabalho dos fornecedores. Além do trabalho, uma boa apresentação do
portfólio é fundamental. Ampliações ou cromos grandes facilitam a
análise. Não importa muito se o fotógrafo faz só still ou foto de
modelo, mas, sim, o estilo e a luz. De acordo com a proposta da
campanha, procuramos o melhor profissional para executar a idéia. O que
a agência quer ver é o estilo e a técnica do fotógrafo. Confesso que os
sites são muito práticos. Muitas vezes os trabalhos são feitos em um
prazo muito curto e, nestes casos, ver o site do fotógrafo ao invés de
pedir a pasta acaba sendo a melhor opção".
Monica Beretta,
atual gerente de art byuer da Y&R, ex- DPZ e McCann-Erickson

Foto:
arquivo pessoal de Kiko Ferrite
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