Entrevistas 3 meses atrás | Laís Fernandes

Leo Faria fala sobre Street Style, rotina e preferências fotográficas

“A fotografia é uma arte. Como toda arte, deve ser feita com prazer, dedicação e, claro, ter um toque diferenciado. Tem que ter estilo e realçar nas pessoas o que elas têm de mais bonito” - Leo Faria

por Revista FHOX

Um dos fotógrafos de moda mais conceituados do Brasil, Leo Faria tem uma longa e bem sucedida carreira, além de reconhecimento internacional e muitas semanas de moda – nacionais e internacionais – no currículo. O fotógrafo conversou com a FHOX sobre carreira, filosofia fotográfica e a relação do street style com a moda de passarela. Confira:

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Você tem quantos anos de carreira? Como começou a fotografar? Já trabalhou com quais segmentos da fotografia?
Vou retroceder a tempos antes, mesmo da minha formação profissional, assim vocês entenderão melhor minha trajetória.

Meu pai sempre foi apaixonado por fotografia. Eu o via registrando tudo a nossa volta. Quando cresci, me apaixonei por Artes Gráficas, me formando em Publicidade e Propaganda. Na faculdade, tive contato com a fotografia de um modo mais formal. Esse contato se estreitou quando fui trabalhar em agências de publicidade e se intensificou alguns anos depois de eu ter aberto minha própria agência de publicidade e ter ministrado aulas de Fotografia e Criação na universidade ESANC, da ESPM. Mas de fato, passei para traz da câmera depois de sucessivas frustrações com fotógrafos que não atendiam minhas expectativas enquanto diretor de criação e foi aí que optei por fazer eu mesmo, passando a me dedicar exclusivamente à fotografia e aqui estou eu, já há 12 anos fotografando.

Como fotógrafo, trabalhei exclusivamente com moda. Minha agência de publicidade operou por sete anos e muitos dos clientes que procuravam minha agência eram relacionados a moda. Quando me dei conta, minha agência era especializada em moda e eu um fotógrafo de moda.

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Como você vê o mercado da moda hoje em dia? Como você enxerga a relação da moda com o street style? Você acha que as marcas se influenciam mais no que veem no street para montar suas coleções, ou as pessoas que se influenciam mais no que veem nas passarelas, catálogos e vitrines?

A verdade e o empoderamento das ruas pós o advento das redes sociais certamente vêm cada vez mais fragilizando a opinião da indústria da moda, que por sua vez claramente tem se rendido aos apelos das ruas. Hoje, as ruas possuem voz e são elas que, em parte, dizem o que a indústria deve seguir e fazer. Isso pode ser limitante do ponto de vista criativo para os designer, mas é igualmente libertador para as ruas… Enfim, é um momento histórico que, como qualquer outro, passará, mas certamente deixará suas marcas.

As redes sociais mudaram completamente as relações entre marcas e consumidores, ou melhor, mudaram completamente todas as relações, sejam elas comerciais ou pessoais. E quem não se der conta disso certamente ficará de fora dos novos tempos, e novos tempos virão em cada vez menor intervalo de tempo, ou seja, o exercício de entender e aceitar as mudança fará, cada vez mais, parte da história dos profissionais, sejam fotógrafos ou não.

O importante, no momento, é equilibrar forças de modo a conquistarmos a liberdade de expressão de todos, ou seja, das ruas e da indústria, sem prejuízos comerciais nem criativos.  Acredito que esse tempo chegará. Por hora, venho notando que o street style tem dividido as atenções em pé de igualdade com as passarelas e as passarelas estão mais preocupadas em agradar as ruas e obter resultados comerciais do que glórias criativas, como no passado. E reforço a expressão “no momento” pois tudo pode mudar a qualquer tempo.

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Qual sua principal dificuldade na hora de fazer um ensaio? Com quantas pessoas você conta na sua equipe? Você tem uma equipe de maquiagem, cabelo, etc, fixa? Você prefere fazer ensaios ao ar livre ou em estúdios?

O clima é o principal fator que pode dificultar um shooting em locação externa. Shooting em estúdio ou em locações internas são mais controlados e portanto não sofrem interferências climáticas, mas há outros fatores que podem dificultar um trabalho, como por exemplo, os profissionais envolvidos, que são em média 15 e que, como em qualquer trabalho que envolve muitos profissionais, precisam trabalhar de forma coesa, produtiva e com sinergia. Isso é algo que precisa ser gerido além da foto, ou melhor, para se obter a foto…

Minha equipe não é fixa. Sempre procuro trabalhar com diferentes profissionais, pois acredito na importaria do intercâmbio profissional e no consequente exercício de linguagens. Sempre dou preferência para trabalhos em externa. Gosto de aproximar o meu trabalho do mundo real e humanizá-lo.

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Como é sua rotina durante as semanas de moda? Tem muita diferença das internacionais com a SPFW? Pra você, muda alguma coisa de país para país?

Tenho pouca rotina nesses períodos, a não ser a de acompanhar o maior número de desfiles possíveis, o que torna o dia a dia cansativo. Se não fosse a satisfação do resultado que se obtém, certamente eu já teria repensado.

A diferença das semanas internacionais para São Paulo, além da proporção ser menor em São Paulo, é o fato dos desfiles lá fora acontecerem cada um em uma locação diferente, sendo raros os desfiles que compartilham o mesmo local. Já na capital paulista, são raros os desfiles que não compartilham o mesmo espaço, o que acaba empobrecendo o street style, porque limita demais a cenografia das fotos.

Cada Semana de Moda e país tem sua particularidade e amo as particularidades de todas. Paris é um mix do estilo mais cool das francesas e as produções mais ousadas do high fashion, porque junta esse estilo muito próprio das parisienses com o fato de a cidade ainda ser o maior centro fashionista do mundo, ainda mais durante a semana de moda.

Milão é o império do luxo à italiana, existe a cultura do acessório made in Italy, então bolsas e sapatos ganham muita importância, é o street style das labels. Nova York tem o espírito street deluxe, a mistura das super trends com um olhar mais descolado, mais prático e mais cool. Em Londres existe espaço para um street style mais genuíno, no sentido de abrir mais espaço para jovens que experimentam, ousam mais e criam sua própria estética, sem depender tanto das grifes.

Em São Paulo, esse tipo de fotografia ainda é muito recente e ainda é comandado por blogueiras e pelas labels, mas aos poucos aparecem tipos e pessoas que trazem um pouco das ruas, da realidade misturada da cidade, e isso é bem bacana porque dá uma chacoalhada nas coisas e traz novas ideias de styling.

Enfim, cada semana de moda pelo mundo tem suas características e isso as tornam únicas e singulares e dificultam a escolha de uma ou outra.

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Acredito que deve ser uma loucura cobrir as semanas de moda. Como é cobrir um evento dessa magnitude? Qual a principal dificuldade e o que você mais gosta?

Acompanhar uma temporada de moda Internacional de fato é uma loucura e muito cansativo, mas enxergo como um grande privilégio, pois não é simples estar nela. No final de uma temporada, chego a exaustão. Os desfiles acontecem um na sequência do outro e muitas vezes se sobrepõe. O deslocamento de um para o outro exige uma logística complexa, organizada por meu produtor executivo, que me acompanha em todas as viagens, e uma equipe local de apoio.

Talvez essa seja a maior dificuldade para acompanhar uma temporada de moda mundo a fora, sem falar no custo altíssimo. Nesse caso, conto com patrocinadores, como a companhia aérea Air Europa e a Homeway / Alugue Temporada, além de trabalhos comissionados por clientes, principalmente do universo da moda. Seria impossível fazer o trabalho autoral que faço se não fossem todos eles: colaboradores, patrocinadores e clientes.

O que eu mais gosto desses períodos é a oportunidade de conhecer pessoas do mundo todo e, principalmente, a oportunidade de ver de perto os caminhos que a indústria da moda está tomando.

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Você roda o mundo fotografando campanhas, ensaios e street style, além de cobrir eventos como as semanas de moda. Você tem um lugar favorito, que sempre busca voltar para visitar? Qual cidade você acha mais linda para editorias?

Eu amo Milão, aprendi a gostar de Paris, quero entender melhor Londres e sempre achei que viveria em Nova York, mas hoje acho que escolheria Portugal para me instalar, mas por hora permaneço com minha base em São Paulo, onde passo a maior parte do ano.

Sempre volto para Portugal. No termino de cada temporada de moda, minha passagem de retorno é por Lisboa ou Porto. Não consigo voltar para o Brasil sem passar por lá. O país lusitano se tornou meu caso de amor e, por sinal, o lugar que considero melhor para fotografar é Lisboa. Tem quem diga que o nome Lisboa vem de “luz boa”. Confesso que não tenho certeza disso, mas imagina se não é pela luz de Lisboa que considero lá o melhor lugar para fotografar?

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Como é sua relação com as modelos na pré-produção e na hora das fotos?

Procuro estabelecer uma conexão com elas, criar empatia e dar liberdade para elas se expressarem. Não acredito numa direção muito impositiva e entendo que do mesmo modo que eu preciso me expressar, a modelo também precisa. Procuro entender o que o cliente precisa e deseja, traduzo para minha realidade fotográfica e crio meios da modelo entender isso sem que eu precise tocar nela ou ainda dar centenas de instruções durante as fotos. Para mim, se isso é preciso, algo está errado.

Acredito na importaria da liberdade que cada profissional de um shooting deve ter e isso vai além das modelos, e até por isso trabalho com profissionais diferentes em cada shooting. Cada profissional tem seu perfil e ora um irá se adequar mais para um trabalho ora outro e mais importante do que a direção no dia das fotos, é a escolha desses profissionais antes das fotos, ou seja, a pré-produção.

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Você tem algum método para estudar as campanhas de moda e os temas propostos?

Não sou muito a favor de métodos. Sou orgânico e extremamente visual. Vejo profundamente e detalhadamente tudo o que gosto e desvio o meu olhar do que não gosto para não me contaminar. Acredito demais na força do subconsciente para encher ele de coisas ruins. Meu trabalho diário e até mesmo o fato de eu acompanhar muito de perto as principais semanas de moda do mundo, faz com que eu naturalmente estude praticamente toda produção mais relevante desse setor.

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O que você mais gosta nas campanhas e o que mais gosta no street style? Tem um favorito? Como você une os dois na sua fotografia? Como você enxerga a relação moda e street style?

Eu tenho cada vez mais procurado unir esses dois universos, pois não consigo acreditar que hoje em dia um possa existir sem o outro. No street style, meu trabalho é muito mais autoral e isso me dá uma liberdade que me agrada bastante. Nas campanhas, por mais que eu traga a influência do street style, preciso considerar a entrega final contratada pelo cliente e isso exercita minha criatividade de outra forma, o que acaba por me motivar profundamente. Amo os dois juntos e misturados.

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Como você enxerga o street style e sua evolução ao passar dos anos? Você acha que hoje é um segmento forte?

Hoje o street style é a linguagem das principais e mais importantes campanhas de moda e vem avançando para todos os setores econômicos e segmentos de mercado. Essa linguagem fotográfica dialoga com a linguagem das redes sociais e, se pensarmos que as pessoas hoje são bombardeadas diariamente por imagens em suas redes sociais, é fácil entender que qualquer imagem muito diferente dessas causará estranheza e qualquer imagem muito próxima dessas causará certo conforto e é daí que advém o sucesso do street style. As imagens muito elaboradas e conceituais das campanhas tradicionais, vão para o sentindo contrário do olhar dos consumidores e isso dificulta qualquer tipo de identificação da parte deles. Aquelas imagens muito elaboradas e conceituais que eram feitas pela industria da moda já não causam mais desejo e sim estranheza.

E vale ressaltar que essa é uma opinião pessoal minha e faz parte da minha percepção e até mesmo da minha intuição e não tenho a menor intenção de ser profundamente assertivo e nem tenho nenhum embasamento científico nessas afirmações, aliás, eu sigo minha intuição e aquilo que acredito ser genuinamente verdadeiro e relevante. Foi isso que me manteve no street style, mesmo contrariando o mundo glamouroso da moda. Esse caminho que escolhi percorrer foi o que me fez chegar aqui e principalmente, foi o que me fez poder transitar livremente no mundo da moda.

Acima de tudo, eu diria que o que determina a longevidade de uma marca ou de um profissional é a capacidade de perceber as mudanças culturais e mercadológicas e de se desprender de amarras de velhos tempos.

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Hoje em dia, se você fosse fotografar outro segmento, qual seria?

Não consigo me imaginar fotografando outro segmento, mas como você me forçou a pensar, diria que seria a fotografia de arquitetura. Amo arquitetura e seria um prazer trabalhar nesse mercado, mas confesso que eu tentaria subverter um pouco o padrão fotográfico desse mercado e buscaria humanizar as fotos com pessoas.

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