Entrevistas 6 meses atrás | Laís Fernandes

Karen Jerzyk e sua fotografia peculiar

A fotógrafa tem como inspiração grandes nomes como Diane Arbus e Francesca Woodman

por Revista FHOX

A fotógrafa norte-americana Karen Jerzyk apresenta uma característica muito peculiar em sua fotografia: ela faz imagens que podem parecer meio bizarras e sombrias a princípio, mas que têm a intenção de atrair o olhar para o belo e desconhecido. Ela conversou com a FHOX sobre seu estilo, mercado e pré-produção. Confira:

Karen Jerzyk (14)Karen Jerzyk

FHOX: Há quanto tempo você fotografa?
Eu comecei a tirar fotos em 2003. Eu gostava muito de música e costumava esconder a câmera debaixo da roupa para entrar nos concertos (naquela época, era normal câmeras não serem permitidas em concertos). A partir daí eu comecei a construir um portfólio de shows ao vivo e eventualmente consegui passe livre para fotografar as bandas. Fiz isso até 2011, mais ou menos. Eu amei fazer esse tipo de fotografia, mas chegou uma época que não me parecia certo. Eu não podia ser tão criativa quanto queria e não ganhava o suficiente. Em 2009 um amigo recomendou que eu tentasse outras coisas, me indicando a área de retratos. Quando comecei, não olhei para trás. Percebi que fazer retratos era o que eu sentia falta o tempo todo. Foi quando finalmente consegui trabalhar conceitos criativos e comecei a construir um portfólio de retratos. Nunca tive muito dinheiro para bancar meu próprio estúdio (continuo não tendo), então comecei procurando locações na internet. De alguma forma eu encontrei fotos de lugares abandonados e instantaneamente me apaixonei pelo visual. Eu sabia que era neste tipo de local que eu queria fotografar.

Foi um pouco difícil encontrar minha estética e por anos eu trabalhei para construir uma assinatura. Hoje, quando as pessoas olham minhas fotos, elas reconhecem o estilo. Eu continuo tentando reinventar a mim mesma, meu trabalho e meus novos projetos, sempre mantendo minha assinatura.

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FHOX: Como você vê o mercado fotográfico hoje em dia?
Temos que estar nas ruas, tentando fazer dinheiro, como todo tipo de artista. As pessoas, às vezes, assumem que é fácil fazer arte, que é de graça. Quando eu ganho dinheiro, 90% do valor coloco de novo no meu trabalho. Como dizem, é preciso gastar dinheiro para ganhar dinheiro. Modelos me contatam todos os dias, querendo “trabalhar comigo”, mas quando dizem ‘trabalhar’ elas, na verdade, querem que eu as fotografe de graça, o que é ridículo, porque, para fazer ensaios, eu gasto com materiais, montagem de sets, roupas e tudo mais. Por exemplo, eu gastei U$ 250 em um velho carrossel. Por quê? Porque é um cenário importante. É um investimento. Eu faço dinheiro vendendo imagens e sei que posso criar coisas lindas e fantásticas com ele. Se uma modelo quer que seu trabalho seja visto, porque não pagam uma fotógrafa. Infelizmente, o termo “trabalho comercial” assumiu a indústria e todo mundo quer só ficar esperando que todos os outros trabalhem de graça. É uma indústria dura para ganhar a vida.

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FHOX: Qual a sua relação com as redes sociais? Você as usa como portfólio?
Em termos de mídias sociais, eu tive muita sorte com o Instagram (é a rede com mais seguidores e curtidas). É como ter um mini portfólio de referência. Se usado corretamente, pode ser bem poderoso, além de excelente para construir relações. Mantenho meu Instagram como profissional, sem postar nada pessoal, porque acho que mantê-lo limpo é a melhor solução. Quero que as pessoas instantaneamente vejam o que eu faço. A atenção das pessoas hoje em dia é muito curta, então, se você não conseguir captar a atenção, eles vão parar de olhar.

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FHOX: Você fotografa em que tipo de segmentos?
Eu faço ensaios e casamentos para ganhar dinheiro, mas minha paixão são as imagens surreais e fantasiosas. Em 2011 meu pai faleceu de forma muito inesperada. Ele teve um ataque cardíaco, mas no início, nós achamos que ele estava apenas se sentindo mal. Ele não gostava de ir ao médico. O ataque cardíaco causou um coágulo sanguíneo que, dias mais tarde, viajou até seu cérebro causando um acidente vascular cerebral grave. Aconteceu quando ele estava na banheira. Eu me lembro de acordar às 4h30 da manhã, com a minha mãe gritando. Eu pensei que estava sonhando. Me lembro de passar pelo banheiro, para tentar encontrar o telefone para ligar para a polícia e vi minha mãe de joelhos, ao lado da banheira. Meu pai estava com os olhos virados, quase não respirando. A experiência foi horrível. Eu era praticamente uma criança quando minha mãe autorizou desligarem os aparelhos (ele foi diagnosticado com morte cerebral). Eu era muito próxima do meu pai e foi devastador. Ele morreu mais ou menos seis horas depois de desligarem o equipamento. Depois que ele se foi, passei por alguns momentos bem difíceis. Estava assustada e deprimida e a única coisa que eu conseguia controlar e me sentia bem fazendo era a minha fotografia. Tirar fotos salvou minha vida. Foi uma forma de terapia que eu não conseguiria encontrar em nenhum outro lugar. Comecei a colocar meus sentimentos e meus pensamentos na fotografia. Minha imagens começaram a ter vida, quase contanto histórias de vida em uma única fotografia. Gosto de pensar que as imagens mostram eu a vida pode ser bela e assustadora ao mesmo tempo. Foi a melhor forma que encontrei de aceitar o que estava acontecendo comigo.

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FHOX: Quais grandes fotógrafos são sua inspiração?
Minhas fotógrafas favoritas são Diane Arbus e Francesca Woodman. Eu sempre fui apaixonada por livros e filmes – particularmente filmes, acho que eles me mostraram a importância dos efeitos. Eu uso muitas ilusões de ótica e truques para fazer as fotos, para que não tenha que usar muito Photoshop. Minhas inspirações tiradas de filmes são todas de diretores que eu amo, como Stanley Kubrick, Wes Anderson, Terry Gilliam, David Lynch, Guillermo Del Toro, Steven Spielberg, Alejandro Iñárritu e Andrei Tarkovsky. As imagens desses diretores sempre são inspiradoras para mim.

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FHOX: O que você mais gosta na fotografia?
Gosto do fato de que existem tantos recursos que podem ser feitos com um orçamento muito pequeno. Descobri que, com a fotografia, quase tudo é possível, mas só se você está disposto a reinventar-se e planejar. Fotógrafos sempre falam de equipamentos, equipamentos, equipamentos, mas com a imaginação certa, quase tudo é possível, independentemente do equipamento que você está trabalhando.

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FHOX: O que te inspirou a fazer o ensaio de contos de fadas sombrio na mansão?
Eu vi fotos da mansão pela primeira vez mais ou menos em 2014. Alguém que eu conheço tentou me convencer a entrar sem permissão, mas eu achei que não seria uma boa ideia (a mansão, chamada de Casa de Oliver Bronson, fica na base de uma prisão). Depois, descobri que eu poderia conseguir permissão para fotografar lá, e consegui um time de modelos, maquiadores, designers e uma florista. Eu amei o visual da casa. Parecia que existia algo muito romântico sobre ela. Achei que, como não era um cenário de todos os dias, ia ser um escape para as pessoas. Nós vivemos em um mundo tecnológico que agora, mais do que nunca, parece importante sair um pouco da vida cotidiana e mergulhar em imagens fantásticas. Gosto de criar mundos desconhecidos que vão além da nossa compreensão. Como nossos cérebros regem a isso?

Para mim, todo o processo de criação de uma imagem de fantasia é quase religioso. É quase como um ritual bizarro que vem acontecendo há milhares de anos, transmitido de artista para artista, em diferentes mídias. Não há nada mais satisfatório do que ser capaz de mostrar a alguém o interior da minha mente, e eu me sinto muito sortuda por ser capaz de retratar minhas ideias exatamente como eu quero. É um ritual, é terapia, é tudo o que eu sei.

FHOX: Como funciona a pré-produção?
Visitei a mansão por algumas semanas, para tirar fotos prévias de onde eu queria montar minhas cenas. Fiz o upload das imagens no meu laptop e depois fiz esboços, para que todos pudessem ver minha visão. Faço isso muitas vezes com minhas fotos.

Confira alguns esboços:

bronsonhouse3Karen Jerzyk

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