ENTREVISTA: Eunilde Carvalho
Faculdade de fotografia não é delírio
Eunilde Carvalho comanda a primeira faculdade de fotografia do Brasil que no próximo ano vai formar sua primeira turma. E mercado para os alunos existe
O reconhecimento da Faculdade Senac de Fotografia pelo Ministério da Educação (MEC) está em sua etapa final. Em Brasília, o projeto de lei nº 1.573, do deputado federal Caio Riela, que regulamenta a profissão de fotógrafo, está em tramitação e com chances de ser aprovado no curto prazo. A diretora Eunilde Carvalho, a Nilde, está contente com a trajetória da Faculdade Senac de Comunicação e Artes/Fotografia até aqui. O curso que tem duração de quatro anos vai formar sua primeira em 2002. Vários dos atuais alunos já atuam no mercado profissional. O perfil dos alunos é de jovens entre 18 e 24 anos que querem conhecer a fotografia. Alguns são desistentes de outros cursos superiores que se fascinaram pelo tema.
Fundada em 1999, a Faculdade de Fotografia vem no bojo das outras iniciativas bem-sucedidas do Senac no ensino superior, como a Faculdade de Hotelaria que existe há 12 anos e é uma referência nacional. Desde a estrutura física até o corpo docente, seu bacharelado em fotografia desperta a atenção inclusive no exterior. É a única brasileira a ter entrado para o guia das melhores escolas de fotografia no mundo da revista francesa Photo.
Pessoas do ramo que receberam com pé atrás o aparecimento da faculdade agora podem reavaliar seu prejulgamento. Acompanhe a entrevista e veja por quê.
FHOX - Por que uma faculdade de fotografia? Há mercado? Houve pesquisa?
NILDE - Claro que existiu uma pesquisa com os segmentos organizados, o sindicato, a Abrafoto, com aquilo que se conhece do mercado fotográfico. Perguntamos aos profissionais o que pensam de um curso superior de fotografia a exemplo do que já existe nos Estados Unidos e na Europa. E a resposta, claro, foi afirmativa. Foram analisadas também as questões mercadológicas. A primeira delas aponta que em todas as áreas existe demanda para ensino superior no Brasil. São dois milhões apenas de pessoas com curso universitário completo e somos cento e setenta milhões.
FHOX - Como justificar o curso, se a profissão não é regulamentada?
NILDE - Estou com o projeto de lei na minha mesa. Nossa preocupação é sempre formar muito bem, atualizar a formação desse futuro profissional para competir no mercado. Mas nem em fotografia nem em medicina, a escola não garante mercado de trabalho. Não existe uma casinha arrumadinha num canto em que eu saia daqui formada e entre nesse casulo. Eu não tenho dúvida de que a boa formação que o Senac prega, garante boas colocações para muita gente. Na faculdade, hoje, só quem não está fazendo um estágio é quem não se preocupou ainda.
FHOX - Quanto é a mensalidade?
NILDE - Quinhentos e oitenta reais, a mesma desde 99. Um preço razoável, não é baratíssimo, nem o mais caro. Os cursos de publicidade, arquitetura, são os que mais poderiam se igualar, mas não em termos de estrutura física. Há laboratório para preto-e-branco e colorido que fica no ar das oito da manhã às onze da noite para o aluno revelar e ampliar suas fotos.
FHOX - O Senac tem bolsa de estudo?
NILDE - Temos um programa. Todo semestre temos permissão de conceder até 5% do número de alunos em bolsa. Ele paga 30% da mensalidade. Essas bolsas são divididas em 50% para carência financeira e a outra metade para projetos de iniciação científica.
FHOX - Quanto ganha o professor?
NILDE - Se for só formado, 25 reais a hora/aula. Se for mestre, doutor, passa de quarenta reais.
FHOX - Em que um fotógrafo formado é diferente de um não formado que aprendeu com o pai ou outro fotógrafo? Pense no caso do fotógrafo de casamento.
NILDE - Tenho certeza de que existe mercado para todo tipo de formação. Não dá para você querer que um fotógrafo social que trabalha num pequeno estúdio que vende caneta, durex, faz revelação, em Manaus, ou Tocantins, tenha o mesmo tipo de formação e trabalho da Camila (Bütcher), do Andreoni, enfim, do pessoal que trabalha aqui. São coisas absolutamente distintas.
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"Perguntamos aos profissionais o que pensam de um curso superior de fotografia a exemplo do que já existe nos EUA"
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A diferença do fotógrafo que estudou e o fotógrafo que na prática conseguiu administrar a sua formação é essencialmente bagagem cultural, é estética, é crítica, é olhar. Aquele fotógrafo que foi atrás desse tipo de informação em livros de história da arte, antropologia, arquitetura, ele juntou. Você pensa em Cristiano Mascaro, João Musa, ou em qualquer um desses fotógrafos e grandes teóricos da fotografia. Eles juntaram uma formação autodidata, mas de uma gama de ciências. Nosso currículo tem antropologia visual, sociologia, história da arte, crítica, ética, estética, legislação. É diferente daquele que retrata uma menina bonita para colocar num book. Esse diferencial é que o livro, a educação do olhar, o conhecimento, dão. Fotógrafos todos nós somos, todo mundo tem uma câmara. Profissio-nalizar isso é o nosso desafio.
FHOX - Como você vê o mercado de arte fotográfica no Brasil?
NILDE - Acho que aponta para o maior crescimento. Do meio do ano passado para cá, o que surgiu de galerias, exposições... Se no Brasil vendesse fotografia como arte de uma maneira mais aberta como nos Estados Unidos, teríamos bons vendedores.
FHOX - O Senac pretende eliminar o curso técnico de fotografia?
NILDE - Uma coisa precisa ficar clara: nós nunca trabalhamos com técnico em fotografia. Nós trabalhamos com um curso livre de fotografia, uma formação básica de sessenta horas em três módulos. Durante os últimos cinco anos, a área de fotografia foi solidificada principalmente por conta desse produto. São dezesseis anos no mínimo. Terminado o básico, o aluno pode escolher uma especialidade: casamento, retrato e book, jornalismo ou publicidade. É essa programação que deu sustentação para que o MEC autorizasse a faculdade. Em 99 fomos casando tudo que existia com duas turmas de curso superior. Aí entraram os outros dois filhotes da escola: os cursos superiores de design de multimídia e de design gráfico. No começo deste ano nós paramos, aqui, com a formação básica. Reproduzimos esse modelo para as unidades do interior e Santo Amaro, Tatuapé, Santana, na capital. A fotografia, graças a Deus, continua crescendo. Trabalhamos aqui com workshops, cursos avançados, grupos de estudos, leitura de portfólio.
FHOX - Com a tecnologia digital é provável que o fotógrafo necessite de uma educação mais formal. Como está o digital?
NILDE - Você pode falar o que quiser da fotografia, mas nunca pode deixar de lado o digital. Quando implantamos o curso em 99, compramos quinze Nikon 35 mm. Dois anos depois, eu jamais compraria quinze. Compraria cinco. De jeito nenhum estou negando o investimento, mas em dois anos a evolução e o crescimento no digital são uma coisa absolutamente real. Estive no seminário do Kotler, em junho, e uma das coisas que ele fez questão de falar para um monte de marqueteiro é que a Kodak americana tinha acabado de 'roubar' o principal executivo da Motorola, porque a indústria fotográfica estava deixando de ser química para ser eletrônica. Então, ponto. Compramos back digital. Neste semestre começaremos a atualização em captação digital para os alunos do sexto semestre. Tratamento da imagem no Photoshop e coisas ligadas ao Macintosh estão no currículo desde o primeiro semestre. Eles têm "Informática I, II e III". Quando sai do primeiro semestre, se quiser, pode gravar todas as imagens que produziu num CD. Ele faz isso tranqüilamente. Então, a fotografia digital está neste currículo desde que o curso começou.
Leia mais na Revista FHOX, edição 69.
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