Por Alexandre Urch
Fotógrafo paulista. Seu trabalho é focado na fotografia autoral, onde se destaca a apropriação de imagens do cotidiano que buscam tornar o invisível e ordinário visível para todos. contato@alexandreurch.com.br

Somos todos manipuladores

“Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira.” – Joan Fontcuberta

por Revista FHOX Publicado há 12 meses atrás | por Alexandre Urch
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Foto de Steve McCurry. No detalhe o ajuste com Photoshop. Cred. Petapixel

Manipulamos nossas fotos desde a invenção da fotografia.  Calma lá puristas, eu explico. O caso de uma foto manipulada do mundialmente conhecido fotógrafo da National Geographic Steve McCurry que veio a tona há alguns dias atrás abriu uma caixa de Pandora dos puristas fotográficos nas redes sociais.

Neste link, em inglês, do site PetaPixel, é possível entender melhor o inicio dessa história: http://petapixel.com/2016/05/06/botched-steve-mccurry-print-leads-photoshop-scandal/.
Claro que se tratando de fotojornalismo a manipulação de uma imagem é inaceitável, pois não estamos tratando de uma simples captura fotográfica e sim de contar, através de uma imagem, a veracidade de um fato ocorrido, então incluir ou excluir um objeto ou pessoa de uma foto é inadmissível. Isso vai além de um simples “ajuste” no Photoshop, se trata de ética fotojornalística, mas não é sobre isso que se trata esse meu texto e nem de colocar o Steve McCurry em uma espécie de pedestal de ouro intocável, mas sim pararmos para pensar um pouco no ato de fotografar.
Ao afirmar que somos todos manipuladores logo no título desta coluna quero mostrar a vocês leitores que por mais que a fotografia não seja “cropada”, que nenhum objeto seja incluído ou excluído da imagem todos os fotógrafos manipulam a cena no momento que escolhem a forma que vai registra-la.
Explico: ao escolhermos a objetiva, usarmos flash, o tipo de “filme” (colorido ou preto e branco), etc., já estamos manipulando a realidade. Pois todas essas escolhas já estão alterando, de certa forma, a cena. Na época que o digital ainda não existia era possível fazer alterações na imagem na hora de revelar o filme ou na ampliação deixando alguns minutos a mais ou a menos os químicos agirem, utilizando processos de revelação invertidos, etc, exatamente igual ao que fazemos hoje nos editores de imagem. Se pararmos para pensar por um instante, hoje na era digital, ao tirarmos totalmente a saturação de uma imagem colorida ou aplicarmos aquele preset “da hora” que você baixou na internet, estamos fazendo o maior crime fotográfico da história, pois estamos alterando/manipulando a imagem toda.
Então, antes de crucificarmos o fotógrafo, precisamos ver o que o fotógrafo, autor das imagens, quis ao registrar aquele momento e, principalmente, o destino que será dado a aquelas fotos, pois ele pode até ser um fotojornalista e produzir imagens para vender em outras áreas da fotografia.

Ele pode fazer seu trabalho sem “nenhuma manipulação” em uma pauta para algum jornal ou revista e na mesma pauta fazer uma ou outra foto para um trabalho autoral para um livro ou exposição onde ele poderá vir até a excluir algum elemento da foto que esteja “sujando” a cena.

E analisando as fotos “photoshopadas” do McCurry é possível perceber que ele remove apenas algum elemento que acaba distraindo o espectador na leitura final da imagem e só quem trabalha na rua sabe da dificuldade que é conseguir o momento exato e ainda conseguir ter o segundo plano, muitas vezes até o primeiro plano, completamente do jeito que deveria ser.

O próprio McCurry disse em uma recente entrevista dada ao site da Time Magazine que não se considera mais um fotojornalista. Diz que iniciou a carreira nessa área, mas hoje seu foco é outro. A entrevista, em inglês, na integra vocês podem ler nesse link: http://time.com/4351725/steve-mccurry-not-photojournalist/.

Talvez seja essa forte ligação que o trabalho do McCurry tem com o fotojornalismo, o que mostra a verdade nua e crua, é que acabou cegando muita gente na hora de “julgar” se o que ele fez foi certo ou errado.

Para mim é justamente essa dúvida, se é real, se realmente aquela cena aconteceu, é o que torna a fotografia mágica e interessante. Mas também precisamos de bom senso e, principalmente, bom gosto quando nos atrevemos a alterar alguma coisa nas nossas imagens.

Finalizando, deixo para vocês leitores uma dica de site que o meu amigo Ignacio Aronovich da Lost Art (http://www.lost.art.br/) me deu que é um site que mostra 150 anos de imagens icônicas manipuladas: http://www.alteredimagesbdc.org/, e a dica de um livro de cabeceira que tenho: O Beijo de Judas – Fotografia e Verdade, Joan Fontcuberta, Editora Gustavo Gili – 2010.

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