Quando um blog de fotografia lança um filme fotográfico

por Revista FHOX Publicado há 2 anos atrás | por Leo Saldanha

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A notícia correu alguns dos principais sites de fotografia analógica. A novidade é o lançamento de um novo filme P&B. Até porque ultimamente o mais comum é vermos filmes saindo de linha. Só o que mais me chamou a atenção é que o produto foi lançado por um blog fotográfico, o Japan Camera Hunter. O filme lançado é o P&B JCH StreetPan 400 Black and White. Rolo que antes era AGFA e foi descontinuado. Agora, segundo o blog, o produto terá uma segunda chance. A qualidade das amostras divulgadas pelo fotógrafo mostram uma película especial, diferenciada e sofisticada. O contraste é ótimo e a qualidade dos grãos impressiona. No momento a quantidade de rolos será limitada, mas existe a possibilidade dele aumentar a produção e baixar o preço. Quem comprar agora recebe uma caixa com 10 rolos por 90 dólares. O Japan Camera Hunter é um diário digital do fotógrafo Bellamy Hunt e fala da fotografia (analógica) japonesa e suas ramificações naquele país. Hunt vive por lá e fez peregrinações nas principais lojas de fotografia nipônicas. Quem for para lá e curte fotografia de verdade deveria consultar o site dele antes de conhecer o Japão. Os roteiros esmiuçados por Hunt são generosos e aprofundados. Sem falar que o conteúdo do diário digital é de extrema qualidade.

O mais bacana é ver esse blog lançar um produto físico e de um tema que ele tanto ama. Chega a ser irônico ver uma atitude de reação de alguém que justamente só escrevia sobre filmes e fotografia analógica. De repente, cansado de ver notícias ruins do mercado, Hunt foi lá e criou uma solução. Faz todo o sentido. Seu blog tem audiência, é respeitado e ele entende do assunto. Serve de inspiração para qualquer lugar do mundo. O que fica claro nesse lançamento é mais um exemplo da retomada da fotografia analógica, ainda nichado e com indicações claras de potencial de crescimento. E mais: tem tudo a ver com o post recente do Gerando Valor (vale seguir). Atitude vale mais que textão! vale mesmo. Difícil é concordar quando eu faço parte dos geradores de textão. Não tem jeito e é inegável: fazer é mais importante do que propagar ideias ou comunicar algo!!!

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Outro caso recente é do fundador do Impossible Project, Florian Kaps. A Fujifilm anunciou a extinção do filme FP-100C (instantâneo). Kaps abordou a fabricante japonesa e está tentando convencer a marca a vender os equipamentos usados na produção daquele produto. Resultado: o FP-100C tem chances de não sumir do mercado. Importante destacar: uma petição no site Change.Org garantiu 17 mil assinaturas on-line de fotógrafos profissionais e entusiastas apaixonados pela fotografia analógica e por esse filme em especial.

Kaps disse ao site Petapixel que vai continuar na batalha para salvar esse produto. Será que ele vai conseguir? Seja como for, vale pela atitude.

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Paixão e persistência são características dos “makers”. O exemplo de Hunt e de Kaps comprova isso. Quando poderíamos imaginar um blog lançando o próprio filme e creio que novos produtos como esses virão. Não é um caso isolado. Cases variados ocorrem em todos os setores da fotografia. Faz alguns dias que o site da FHOX postou sobre um guarda-chuva maluco que ajuda quem quer fotografar na chuva. Onde surgiu? no Kickstarter. E é justamente graças ao impulsionamento das campanhas de financiamento coletivo em sites como Kickstarter, IndieGogo e aqui no Brasil com a Kickante que essas ideias saem da internet. Hoje você encontra em qualquer loja da FNAC a câmera SocialMatic da Polaroid. Lembra dela? uma câmera que faz fotos impressas na hora e ainda compartilha fotos nas redes sociais (ela tem o formato do logo do Instagram). Surgiu nesses sites do Kickstarter e IndieGogo.

Enfim, é uma pena é que aqui no país as coisas caminhem meio tímidas. Nossa cultura parece não valorizar e nem estimular os atos colaborativos de empreendedores. Mais parece existir algum tipo de preconceito ou desconfiança quanto a essas iniciativas. Ainda assim os do time do “faça você mesmo” estão por toda a parte. Aqui no Brasil, começam a surgir  empreitadas colaborativas muito próximas desse perfil de fazer, ou ajuda os outros a fazerem algo. São verdadeiros Airbnb de equipamentos. As pessoas podem alugar uma câmera, drone ou outros eletrônicos. A principal vantagem? redução de custos para quem aluga e geração de renda extra para os donos do equipamento. Leia esses dois posts e entenda os detalhes: Plataforma ajuda usuário a ganhar dinheiro com aluguel de objetos e Empresas alugam luva, furadeira, pandeiro e drone, por R$ 0,10 a R$ 600 – dia.

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Outra face incrível desse momento dos que fazem acontecer é das oficinas que ajudam os participantes a criarem suas próprias câmeras. Fascinante ver iniciativas como essa pipocando por aí. Basta olharmos o Projeto da Câmera Oca.

“O projeto da Câmera Oca nasceu das conversas entre o fotógrafo Guilherme Maranhão e eu (Roger Sassaki) sobre a dificuldade que nossos alunos e colegas tem em achar uma câmera de grande formato para continuar a prática fotográfica de nossos cursos. Conversamos muito sobre como seria legal desenvolver uma câmera que pudesse ser montada por cada um durante uma oficina de poucos dias. O Guilherme se utiliza dos filmes em chapas para radiografia em suas investigações e trabalhos e eu utilizo câmeras de grande formato para fotografar em calótipos e placa úmida de colódio. Assim, a Oca foi projetada para aceitar em seu chassi processos de captura em placas, seja em processo úmido ou seco e também com filmes fotográficos em chapas até o tamanho de 13x18cm (5×7 polegadas) ou o formato quadrado de 16x16cm.

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imagineiro.com.br

A Câmera Oca é uma mistura de modelos do início da fotografia e algumas soluções posteriores. Não é uma réplica de nenhum modelo que existiu. Ela é baseada em caixas deslizantes para ajustar o foco e na troca da peça do despolido para o chassi vedado à luz para a placa fotossensível. O chassi tem algumas características dos feitos para placa úmida de colódio no séc. 19. A objetiva é um modelo de lentes simétricas não acromáticas com diafragma “waterhouse”.

A escolha dos materiais e soluções do projeto também levou em conta a simplicidade na construção, a disponibilidade e baixo custo das peças e a possibilidade de ser montado por uma pessoa sem habilidades em marcenaria e sem maquinário pesado, somente ferramentas simples. A Oca é entregue em formato de kit de peças pré cortadas para colagem e leve ajuste final.

Além destes objetivos práticos, também pensamos que a construção é uma ótima oportunidade para o aluno descobrir o aparelho fotográfico. Durante a montagem o projeto é explicado e o aluno consegue entender a função de cada coisa feita e sua implicação na formação da imagem final. Esperamos que ele ganhe as noções necessárias para modificar o projeto posteriormente de acordo com suas necessidades.”

A ideia desse projeto gerou não só uma câmera de grande formato de montar, mas também um curso e atividades relacionadas. E o melhor de tudo é que ajudou a estimular a fotografia analógica. Ou melhor, a fotografia de um modo geral.

Clique aqui nesse post do site O Imagineiro e entenda melhor.

Enfim, bem que o título desse post (textão com casos de atitude) poderia ser: como os fotógrafos (e apaixonados pelo assunto) vão salvar a fotografia.

ps – Se você está em busca de inspiração e de um exemplo claro de maker e de empreendedorismo. Vale ler o livro “Lições de um empresário rebelde” de Yvon Chouinard.  É sobre um surfista e alpinista que criou uma marca que virou referência em vários aspectos. A história de superação e o desenvolvimento da empresa traz uma dose cavalar de motivação (não sem alertar que a vida que mistura paixão e trabalho é das mais desafiadoras). Leitura fascinante.

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