O que a loja de foto pode aprender com a Apple Store

Após forte transformação, surgem grandes oportunidades para um novo conceito de loja de imagem. E o case das Apple Store tem muito a dizer sobre os caminhos que podem ser seguidos

por Revista FHOX Publicado há 1 ano atrás | por Leo Saldanha
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A nova Apple Store em San Francisco. Área exclusiva para fotografia e atendentes fotógrafos para ensinar a usar os produtos da marca. Foto: Cnet

O que você pensa quando digo “loja de foto”? talvez você pense: isso ainda existe? Ou quem sabe passe pela sua cabeça algo antiquado. Ou ainda pode ser que você nem saiba o que é isso. A loja de fotografia tinha um status nos anos 80 e 90. Eram pontos (re)conhecidos nas ruas e em todos os shoppings até o meio dos anos 2000. Nesse trecho, lembro do meu pai dizendo contrariado: como o varejo fotográfico ficou com pontos tão feios? Tão desatualizados? Trabalhamos com imagem e o visual do foto especialista parou no tempo.

Mas será que toda loja de foto é feia? Não é bem assim. Exemplos recentes que eu visitei e vi por aí mostram o contrário. A ação da Fujifilm com o novo conceito Photo Lovers traz uma chance de renovação no design e no formato do negócio. Outro case recente é da Revelar Fotografia, loja de foto recém-inaugurada em Arapongas (PR). O espaço conta com diversos serviços. Impressão a partir de smartphones, revelação on-line, foto documento, fotografia profissional, decoração moderna, enfoque em presentes criativos e personalizados. Com direito a fanpage e site bacana. Bom de ver loja nova chegando no mercado.

O problema é que o exemplo da Revelar não representa a média da nossa base instalada. Outro dia passei na frente de uma loja horrível. Nem fotografei de tão feia que era. No bairro do Butantã. Pior, uns 200 metros dali tinha outra ótica também feiosa com uma placa dentro escrito: Foto 3×4 faça aqui. Note que mesmo antiquadas, esses pontos usam fotografia como chamariz e ainda assim atraem clientes interessados. Imagina se fossem um pouquinho melhores. Agora vamos dar um salto para o outro extremo. O que podemos aprender com a rede de varejo mais valiosa do mundo.

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A Apple Store começou um processo de renovação. E olha que se trata do metro quadrado de varejo mais rentável do mundo. O projeto piloto é de San Francisco (EUA). Primeiro, vale lembrar que diversas lojas da marca já contavam com decoração com fotos e artes feitas com seus produtos. Viraram verdadeiras galerias mostrando o que você pode fazer com o iPhone ou com o iPad. Depois de 15 anos desde a inauguração da primeira Apple Store, chegou a vez de uma grande renovação encabeçada por Angela Ahrendts, ex-Burberry (grife de luxo). A executiva foi contratada para tornar as Apple Stores ainda mais sedutoras. Em matéria recente da Folha Angela disse: as lojas são o item mais importante da Apple hoje. De fato, esse maior produto pode ser conferido de perto em 477 pontos de 18 países (Brasil inclusive). E a próxima parada deles é a Índia.

Agora preste atenção na estratégia da Apple: fotógrafos farão parte do time para atender aos clientes. Por quê? Porque 900 milhões de pessoas já compraram um dia um iPhone e desde a primeira versão você pode fotografar com um aparelho desses. A fotografia é parte fundamental do negócio. Estamos falando de pelo menos 1 bilhão de fotógrafos amadores. Acho que faz muito sentido decorar as lojas com fotos feitas com iPhone e colocar fotógrafos (instagramers?) para atender ao público e mostrar como fazer uma selfie mais “da hora”. Angela disse que quer as novas Apple Store sejam ainda mais bonitas, assim como o iPhone e os outros produtos deles. A executiva, acostumada com o segmento de luxo, deve estender essa aura para a nova fase em todo o varejo da Apple. E como fica a nova loja?

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Foto: iMore

– Elas terão cinco áreas especiais. Agora com um espaço batizado de Creative Pros. Com colaboradores criativos de várias áreas. Entre elas a fotografia. Esses criativos vão mostrar como você pode tirar mais do produto (entre eles fotógrafos). Criar belas fotos, por exemplo. Além de dar dicas de acessórios dentro da própria Apple Store. O Genius Bar virou Genius Grove. Ainda funciona como suporte, mas mais com enfoque em lounge para relaxar. Isso porque muitos usuários acabam tirando as dúvidas on-line.

Foto: Architectural Digest
Foto: Architectural Digest

– Outra novidade é um setor chamado de Forum. Lugar amplo para palestras feitas por especialistas (de novo, fotógrafos estarão nesse time de palestrantes) que devem motivar e ensinar os clientes.

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– E mais um diferencial: um setor dedicado para as pequenas empresas batizado de “The Boardroom”.

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– Na parte de fora, terão fontes e área de recreação com grupos musicais se apresentando nos fins de semana.  Wifi grátis e outros mimos.

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– O NYT definiu muito bem: o novo conceito de loja não é para vender os produtos da Apple, mas sim o estilo de vida associado a marca. Na matéria do NYT da semana passada uma descrição apurada de como será essa experiência:  Você vai entrar na loja para comprar seu iPhone na renovada área The Avenue, apreciar um workshop com um artista no The Forum, arrumar seu laptop debaixo das árvores do Genius Grove e ainda receber treinamento no The Boardroom. E tudo isso ficando dentro de um Apple Store o tempo todo.  

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No fim, a Apple investe no marketing 3.0 com enfoque na venda de experiências. Curioso é que a principal referência no varejo fotográfico mundial também faz isso. Talvez você tenha visitado a B&H Photo em NY. Trata-se de uma verdadeira atração turística para fotógrafos e entusiastas. Por quê? Porque tem variedade, setores organizados, especialistas em fotografia em diversos segmentos, porque eles dão consultoria e podem até te indicar um produto mais barato mas que vai te atender melhor. Visitar a B&H Photo é uma grande experiência. Embora o local não seja uma Apple Store em beleza.

Logo visitar uma loja de foto deveria ser da mesma forma. Não, não estou imaginando que as lojas de foto devem se travestir de Apple Store ou que toda loja de foto pode se transformar em uma B&H Photo. Na verdade, elas podem e devem entender seu verdadeiro caráter especialista. A loja de fotografia deveria ser o ponto de encontro de fotógrafos, entusiastas, instagramers e afins. A loja de foto deve ministrar cursos diversos, mini palestras, entrevistas ao vivo, exposições e aproveitar cada momento para imprimir e vender acessórios e valorizar a fotografia. A loja de foto de hoje deveria ser uma loja especialista em imagem.

Foto: Dicas NY
Foto: Dicas NY

A propósito, a nova Apple Store não é movimentação tática. A empresa sentiu a desaceleração na venda dos aparelhos no mundo e quer encantar clientes atuais e converter os que não são. Para que ao visitar uma Apple Store, as pessoas sintam-se especiais. A grande questão: será que vai dar certo e ajudar a vender mais iPhones e outros produtos?

Para o ramo fotográfico o questionamento é outro: quais  lições as lojas de fotografia podem tirar desse case mundial que não para de se reinventar mesmo vendendo um dos produtos mais rentáveis do mundo.

 

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