O protocolo? A imparcialidade, talvez

por Revista FHOX Publicado há 5 dias atrás | por Laís Fernandes

Nesta semana, a FHOX publicou uma matéria sobre o fotojornalista sírio que deixou a câmera de lado e tentou ajudar uma criança vítima de ataque terrorista, carregando-a nos braços. O título da nossa matéria? “Fotógrafo sírio quebra protocolo e tenta salvar criança”. A notícia? Ela repercutiu. E muito. E com razão. Afinal, não é todos os dias que nós vemos algo assim.

Abd-Haak

Você deve estar se perguntando: por que mais um post sobre isso? Nós respondemos: a palavra protocolo, usada pela FHOX no título da matéria, chamou a atenção dos nossos leitores. Parece que alguns se incomodaram e alguns só ficaram no questionamento. E este questionamento, é claro, passou para nós.

Por que escolhemos essa palavra específica? Por que simplesmente não colocamos de título algo como “Fotógrafo sírio tenta salvar criança vítima de ataque terrorista”? Por quê? Talvez seja pela nossa bagagem. Afinal, quem não se lembra de Kevin Carter, membro do Clube do Bangue-Bangue, que tirou a foto do urubu a espreita de uma criança à beira da morte? Bem, Kevin tirou a fotografia. E foi embora sem espantar o animal ou ajudar a criança. Se não existe um ‘protocolo’ que nos impeça de ajudar, também não existe um que nos faça dar esse suporte.

destaque-kevin-carterKevin Carter

Você abaixaria sua câmera para ajudar? Você sairia correndo com uma criança nos braços, no meio de um bombardeio, buscando ajuda? Eu não sou fotógrafa. Sou jornalista. E não sei se eu faria o mesmo que Abd Alkader Habak. Talvez eu assistisse à cena, registrasse com uma câmera ou um celular e me abrigasse em algum lugar consideravelmente mais seguro do que na rua. E me preparasse para escrever uma matéria triste e trágica.

Jornalistas, fotojornalistas… Nosso ‘protocolo’ não é ser imparcial? Não é registrar, com palavras e imagens, o que acontece à nossa volta? Ao mesmo tempo, nossos valores contrastam com essa imparcialidade. A vulnerabilidade de uma criança ferida no meio de escombros faz com que nós atravessemos esse protocolo de ser imparcial. Ou não.

Kevin Carter escolheu tirar a foto e ir embora. Um fotojornalista brasileiro, há mais de dois anos cobrindo a guerra da Síria, escolheu publicar no Facebook um vídeo em que uma pessoa aparece sendo baleada. E assim é a vida. Feita de escolhas. E nesse caso, não existe uma certa e uma errada. Existe você e a sua consciência, seus valores e seu poder de reação. Seu protocolo.

O protocolo que está no título da nossa matéria? Voltado para esse conceito de imparcialidade sugerido pelo fotojornalismo, afinal, o protocolo seria tirar a foto e dar as costas, saindo em busca do próximo clique.

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