O mistério da menina do relógio

Nas últimas semanas a criança do anúncio de rua parecia me dizer algo. Decidi desvendar seu segredo.

por Revista FHOX Publicado há 9 meses atrás | por Leo Saldanha

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Outro dia voltava da Fhox e vi esse display de rua. Você talvez já tenha visto por aí. Ou quem sabe viu em um ponto de ônibus. Ou em anúncio de revista. Só nesse ano saíram anúncios da Apple na Veja, Época e lá fora no NYT e em anúncios frequentes em respeitadas revistas como a Wired e Fast Company. Anúncios de quarta capa impactantes com fotos maravilhosas. Todos trabalhos feitos com iPhone 6s. Mas calma, não estou fazendo propaganda. Vale antes analisarmos o irônico da situação. Apple é uma gigante de tecnologia que já vendeu quase 1 bilhão de iPhones e é uma das marcas mais valiosas do mundo. Uma empresa moderna que aposta e investe na “velha” mídia. A campanha “Clicada com iPhone” está em São Paulo e mais 84 cidades de 26 países. Com forte presença também na mídia externa (outdoors) com 53 imagens de 41 fotógrafos profissionais e amadores de vários países.

Pois a foto que ilustra esse post fica perto da FHOX e todas as vezes que passava pela imagem o anúncio da Apple parecia me dizer: venha, compre seu iPhone. Se todo mundo é fotógrafo você também pode Leo”. Uma fotografia cheia de vida e ampliada em algum substrato especial, muito bem iluminada. Talvez ainda mais realçada pela ótima exposição em uma avenida feia como a Santo Amaro.

E todo dia eu passava por ela e ouvia o mesmo chamado. Leo, você também pode clicar assim.

Cansado de seus chamados um dia parei e fotografei o relógio da menina enigmática. Resolvi pesquisar e vi que seu criador era Chris F. e que ele deu entrevistas sobre esse trabalho e disse que para chegar no resultado final teve que repetir a cena diversas vezes. Uns 12 cliques até chegar na foto que ele tanto buscava. “Uso câmeras profissionais quando são trabalhos pagos, mas os bastidores só uso o iPhone”. Ou seja, as ferramentas convivem, coexistem.  Agora, toda vez que passo por aquela menina consigo até assistir aos bastidores do ensaio. Vejo Chris F. esperando a menina relaxar os músculos do rosto para só então ele clicar com seu iPhone 6s. Faz sentido. Já que ele não queria uma foto posada.

Clicada com um iPhone 6s, mas fotografada por um profissional. Todo mundo é fotógrafo com uma câmera de smartphone no bolso, mas quantos são profissionais?  Quantos dominam de verdade essa era da imagem? Na entrevista Chris disse misturar os trabalhos e enviar tudo junto para seus clientes. Ele sabe que é tudo fotografia. As fotos com smartphone são tratadas direto no aparelho (com Snapseed) e toda vez que usa o app ele diz relembrar dos bons tempos da laboratório e dos ajustes finos que fazia sozinho. Bagagem.

Chris F. Imprime as fotos com frequência. Isso porque ele quer que seus filhos tenham memórias tangíveis, mas ele entende que as novas gerações só querem ver imagens na tela. Ele terminou a entrevista dizendo que lembra do tempo dos pais. Comparado com o tempo deles (antes de eu nascer) eles tinham umas 50 fotos deles e da família, no máximo. Hoje meus filhos tem suas vidas documentadas a todo instante e em tempo real.

Muitos dos fotógrafos da campanha da Apple são de fato amadores, embora a maioria tenha sido convidada pela marca porque tinha muitos seguidores e uma experiência fotográfica considerável.

Resolvi escrever esse post porque senti algo de enigmático no olhar daquela menina na foto do relógio. De lá para cá toda vez que passo pelo relógio a criança parece sussurar: Leo, fui clicada com iPhone por alguém com bagagem, domínio técnico e que entende de fotografia.

 

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