Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do curso de Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

Luz na escuridão: as estonteantes fotografias de Brassai

por Revista FHOX Publicado há 1 semana atrás | por Amanda M. P. Leite

Untitled-1George Brassaï (1899 -1984), usava este pseudônimo em homenagem a sua cidade natal, Brassó, localizada na antiga Transilvânia-Hungria, hoje Brasvo, Romênia. O fotógrafo, enquanto estudante de arte, circulava entre os artistas plásticos Kandinsky, Kokoschka e Moholy-Nagy. Ao longo de sua carreira registrou fotografias noturnas das ruas de Paris, que resultou na publicação do livro: Paris de Nuit (Paris de noite, 1932), com 60 fotos inéditas.

As fotografias de Brassai produziram fissuras na imagem ou uma espécie de convite a outras formas de ver. Brassai revelava Paris – uma cidade noturna tomada pela paixão e pela lascívia. Em suas fotografias despontavam casais, moças, cafeterias, boulevards e cabarés. Tudo em meio a inconfundível arquitetura parisiense. O fotógrafo tomava estes elementos e os colocava a deriva de um olhar continum, atento, envolto a intensidade de cada registro.

Brassai sabia que o instante do disparo era valioso e antecedia todo o registro. Por isso, passeava pelas alamedas com cautela. Era imprescindível estar a postos, à espreita do momento “perfeito” para executar o disparo. Como um caçador que vigia a fragilidade de seu alvo, o fotógrafo sustentava sua lente até fisgar ou prender o objeto/cena caçado na película sensível.

Brassai dizia imaginar a fotografia antes mesmo da captura. O registro do instante era um marco crucial em suas fotos. Contudo, algumas fotografias foram questionadas quanto a uma possível encenação. É o caso de Amantes em um café de la Place d’Italie (1932). Nela, Brassai projeta em um mesmo minuto elementos da realidade e da ficção.

2Brassai

Uma cena comum. Um homem está prestes a beijar uma mulher. Parecem apaixonados pela maneira como seus corpos inclinam-se a ponto de se encaixar. Pelo reflexo do espelho a imagem do casal é triplicada. (Triplicado também o clímax da paixão?). Enquanto o homem ajeita sua mão esquerda em baixo do busto da mulher, ela faz charme, ergue o queixo e esbanja um largo sorriso nos lábios. O cigarro aceso aquece a cena, dá mais vivacidade ao gesto. No espelho, ora o homem, ora a mulher estão em evidência. Para a moça o garçom serve uma bebida, para o rapaz, uma xícara de chá com um cubinho de açúcar. Ali está Brassai. Onde? Naquela noite, naquela cafeteria. Saberíamos dizer se estaria perto deste casal?

Aprisionados entre a mesa estreita, um sofá pequeno e a quina da parede, agora estão prestes a se beijar. Assim como o cigarro aceso nunca mais voltará a sua forma original, Brassai aproveita o instante efêmero para transformá-lo em algo eterno. A magia da fotografia está no reflexo ou nos três ângulos simultâneos presentes no enquadre.

A fotografia dispara nossos olhos para uma experiência ética, estética e artística associada ao sensível, ao instinto, ao singular, ao subjetivo. A função utilitária e objetiva que fora atribuída inicialmente a trama fotográfica se esvai com o tempo, acendendo possibilidades de novas teorias, linguagens, composições e técnicas. A fotografia se caracteriza por sua estrutura aberta, pela infindável arena de interpretações que se dá entre o ver o pensar.

A fotografia passa a ser arte. Da arte, passa a ser bem de consumo que estende ao mundo imagens de nós mesmos, tornamo-nos objeto de admiração e indiferença. Barthes (1984) lembra que a fotografia grava simultaneamente o tempo em espaço e o espaço em tempo. A fotografia apresenta presença e ausência em distintos tempos-espaços e de uma única vez. A fotografia se enleia a memória, seja atrelada a reconstituição histórica ou a lembranças familiares e pessoais, ela estabelece limiares tênues entre realidade e ficção.

3Brassai

São os personagens ficcionais que nos desestabilizam e nos fazem pensar diante da imagem. Não importa se a fotografia documenta o real. Neste sentido, a fotografia de Brassai pode não representar algo. O que vemos na fotografia pode não ter acontecido do modo como vemos na imagem. Essa narrativa opera como decomposição.

Realidades são criadas e nisto não há neutralidade. Se por um lado, a fotografia assume a marca de um tempo-passado, um tempo que já não existe, como “um testemunho natural daquilo que foi” (BARTHES, 1984, p.139), por outro lado, sua força/potência nos permite elucubrar sentidos diversos sobre o tempo-presente. Entre morte e vida a fotografia grava o tempo, as nossas experiências, nós (nossa autoexpressão). Ao se desprender da própria cena ela inaugura outro lugar em que as divagações são possíveis e desejáveis.

1Brassai

Como um andarilho que percorre a cidade sem destino certo, Brassai explora a paisagem urbana à espera de que algo inusitado aconteça. Suas fotografias expõem a nevoa das madrugadas de Paris, a energia de um momento, detalhes apaixonantes de cotidianos noturnos, a intimidade humana, a paciência do fotógrafo à espera de um instante perfeito… São fotografias, que a meu ver, nos convocam a pensar muito além de um prazer estético.

Mesmo que tenhamos hoje uma infinidade de técnicas e de aparatos para “fazer” fotografias, voltamos a mestres como Brassai, para nos inspirar a compor narrativas visuais.  Como um turista que percorre atentamente a cidade em busca de novidades, Brassai nos ensina a (re)descobrir objetos e cenas cotidianas como quem as vê primeira vez. Longe de exibir uma Paris monumental, o fotógrafo captura à intimidade noturna de uma cidade projetando luz na escuridão.

Amanda Leite

Fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do curso de Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins. Contato: amandaleite@uft.edu.br.

Referências

BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

LEITE, Amanda M. P. Fotografias para ver e pensar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2016.

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