Fotografia: a relatividade de nossas certezas

por Revista FHOX Publicado há 1 semana atrás | por Sala de Fotografia

O tempo. Esse que se refere à duração relativa das coisas, e que nos dá a ideia de passado, presente e futuro. Essa unidade que anda tão escassa para todos nós na contemporaneidade, e que tanto nos causa ansiedade. Mas o fotógrafo não deveria ser um senhor dos segundos, já que a fotografia representa uma parada no tempo? Um congelamento de um instante para toda uma
eternidade? Ainda, aquele que produz memórias que perduram, já que observa mais atentamente e grava os detalhes por meio de suas lentes, transformando o ordinário em extraordinário?

foto-Liliane-Giordano

Contudo, nessa ânsia de nos jogarmos nos instantes, acabamos esquecendo desta pausa que representa a fotografia. Ao agir com pressa, o fotógrafo, por vezes, acaba encontrando atalhos no percurso, não compondo assim da melhor forma, não enxergando nas entrelinhas os detalhes e as
emoções. Sem tempo para contemplar, não percorre o caminho com um olhar mais atento. Acaba ficando muito atrelado ao resultado, ao seu objetivo final, e então esquece de viver o processo de criação da fotografia.

Muito antes de apertar o botão da câmera, é necessário um momento de pausa, de contemplação. Esse tempo pode dar o acaso, é a imagem a ser captada que se mostra. Na pressa, pode-se acabar por registrar uma cena momentos antes de um instante decisivo. Há que se esperar os acontecimentos.

Cada vez mais é preciso tempo, tempo para olhar mais que ver, tempo para registrar, e tempo para se questionar. Quando ocorrem questionamentos, dúvidas, então é possível relativizar as certezas que se criam. E assim podemos perceber outros elementos, outros detalhes, outros sons, outros cheiros, outros lugares, outras sensações, outros movimentos. A dúvida é o combustível da criatividade, da ciência, da mudança.

Ter tempo para as coisas nada mais é que um hábito. Nas pausas, nas andanças sem pressa, o fotógrafo pode então se permitir tempo para a criatividade. Mas também para criar memórias indeléveis. O grande poder do fotógrafo não reside, portanto, em só parar o tempo, mas também em observar o que se passa no tempo. Ele, então, tem e desenvolve a cada dia esse apuro visual, essa acuidade, essa agilidade em acertar o momento.

Conforme o que seu olho capta, acaba por ter determinada relatividade de uma certeza. Assim também o faz quem olha o resultado em imagem. Cada um percebe de uma maneira, faz a sua leitura. E, quando se olha com calma, novamente entram em jogo a relatividade, a dúvida, a contemplação ou o descarte da primeira impressão carregada, ou não, de pré-julgamentos.

Estamos em um momento oportuno para refletir sobre o tempo na fotografia: não apenas das mudanças tecnológicas, mas também do que a técnica que permite congelar o instante significa para uma sociedade com cada vez mais pressa. Além disso, é oportuno pensar não só o que o tempo na fotografia representa para o mundo concreto, mas também para o próprio universo imagético.

A transformação da fotografia coincide e também é responsável por uma mudança significativa, dinâmica e portável, considerando as transformações e características do mundo contemporâneo. Estamos percorrendo o universo da transitividade dos processos na fotografia, da hibridização entre ciência, arte e tecnologia, e com certeza tentando acertar o foco, construindo para isso um espaço e tempo interdisciplinares. Interdisciplinaridade esta que está intimamente ligada às possibilidades criativas, já que é a conjugação de múltiplos saberes.

Na urgência a que nos acostumamos, passamos muito rápido pela transição dos processos na fotografia, e nem sempre questionamos as mudanças. É extremamente importante pensar que este momento de transitividade fez com que muito da fotografia se tornasse instantânea e efêmera, ficando assim muitas vezes desassociada de um contexto histórico, político, cultural e social. Ao clicar sem tempo, na pressa cotidiana, o fotógrafo pode acabar reforçando essa desassociação, e acaba sendo também um instrumento a inundar ainda mais o nosso mundo com imagens deslocadas, que perdem o interesse no segundo seguinte. O desafio está em produzir imagens que perdurem, que tenham significado, que criem redes, conexões. O desafio é usar o tempo a favor da fotografia, criando a partir de imagens novas formas de contar histórias, narrativas que podem quebrar estereótipos e preconceitos.

Apesar de representar uma parada no tempo, o tempo próprio da fotografia se acelera agora, onde muito é produzido a cada minuto. Fotografia também precisa representar uma pausa para observar, para ler uma imagem, ou então para ver sem clicar, se aproximando assim do que se quer retratar. O tempo também está na fotografia quando se pensa na possibilidade de interpretação, já que, para interpretar, entram em jogo o conhecimento de mundo, interesses e expectativas do observador, além de considerar o espaço e o tempo necessários para isso. Há dois tempos na fotografia: um tempo do ver, olhar e clicar; e o tempo do ver, olhar e pensar.

Liliane Giordano e Sabrina Didoné, fotógrafa e mestre em educação e jornalista, “um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” – quer dizer – conversaram muito sobre a Sala de Fotografia, onde viriam a desenvolver muitos projetos juntas. Além de produzir muito conteúdo sobre o universo da fotografia, também vivem o mundo sobre o qual escrevem, inseridas nos processos fotográficos e de educação visual. Afinal, acompanham na escola de fotografia o desenvolvimento de alunos e de profissionais desde sua iniciação fotográfica aos mais avançados projetos de livros e exposições. Juntas, unem a trajetória acadêmica e poética de Liliane, com a dinâmica da escrita de Sabrina.

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