Por Felipe Tazzo
Felipe Tazzo é profissional de marketing, produtor executivo consultor de carreira artística desde 2005, e ainda escritor e segundo fotógrafo de Denise Maher. 

E se estiver tudo errado?

Novo post de Felipe Tazzo aborda a importância do erro no processo criativo

por Revista FHOX Publicado há 1 semana atrás | por Felipe Tazzo

mistake

Na minha experiência com fotografia eu passei mais tempo errando do que acertando. Em um casamento, eu e a Denise (minha esposa e a primeira fotógrafa da empresa lá de casa) torramos de quatro a cinco mil cliques. E tem gente que se gaba que sua equipe chega fácil nos 10 mil. E, claro, também tem gente que diz que se você não consegue fazer com 2 mil cliques, é melhor nem tentar.

Há razões nos dois lados, claro. Encontrar a resposta certa é tão saudável e preciso quanto escolher o político honesto nas próximas eleições.

Desse rol, entregamos pouco mais de 800. Calculo então que erramos 3200 vezes. Fizemos 3200 escolhas erradas. Fomos incompetentes, despreparados ou afoitos 3200 vezes. Em uma única noite.

Mas aí a gente racionaliza: na verdade eu estava procurando “aquela” foto. Aquela que dá prêmio. Que vira a capa do nosso site. Que vai para o concurso. É um jeito de pensar e conseguir fazer outros 4 mil cliques no fim de semana seguinte.

É uma boa desculpa, não?

É possível pensar assim porque no casamento, eu sei o que eu quero. Eu sei qual é “a” foto. Eu sei o que é possível virar prêmio. Não vou chegar nela nunca, mas cada vez que eu tento, encontro algo ainda mais legal.

Isso é o mercado de casamentos, mas muito bem poderia ser gestante, ou moda, ou paisagem, ou esporte, ou tantos outros.

Mas não é nem de perto o caso da fotografia artística.

Assim como em qualquer outra arte (teatro, música, dança, etc), sair de casa com uma expectativa de resultado é a maior receita para ódio, frustração e vontade de jogar a câmera na parede (mas isso passa rápido quando a gente lembra do preço da câmera). A arte é um caminho deliciosamente imprevisível. É a mais pura santa paz do caos.

E se a gente, ao invés de tentar acertar, buscasse errar? Mas errar mesmo, ridiculamente longe?

Os caras e as minas de qualquer vertente artística que a gente mais admira eram os que os outros estranhavam. Dali, Frida, Bowie, von Trier, Bukowski – tudo gente estranha. E o que eles tocavam, virava do avesso. Na fotografia não é diferente: Helmut Newton, Vivian Maier, Pierre Verger, José Oiticica (pai do famoso artista plástico Hélio Oiticica) e tantos, tantos outros cujas técnicas são tão encantadoras que só podem vir de um lugar: do lugar errado.

stock-photo-outdoors-red-book-reading-tiles-failure-fail-better-flat-lay-28530ceb-0a66-4aaa-a795-9dbdabfddd27
foto de Laura Cami

Errar é treino. Errar é experimentar. Errar é construir. Se você tem um resultado com o qual está comprometido, errar te leva cada vez mais perto. Mas se você não tem um objetivo específico, errar te leva cada vez mais longe. E lá longe, onde ninguém teria coragem de olhar, é onde você quer estar. Afinal, para que serve fazer bem feito algo que alguém já fez? Ou, pior ainda, para que serve fazer algo que não é seu?

Erre.

Se estiver tudo errado, ótimo! Ninguém vai a uma galeria para ver gente normal e bem comportada.

Talvez eles não gostem. Talvez eles até protestem. Mas eles não conseguirão fingir que você não existe.

 

Notícias relacionadas