Carta a um jovem palestrante

Congresso: reunião de especialistas para deliberar sobre questões de interesse comum ou para que se apresentem estudos, novas descobertas etc.; conferência.

por Revista FHOX Publicado há 8 meses atrás | por Leo Saldanha

microphone

Entre os passos dados da plateia e a subida do palco você terá alguns segundos. Respire. Quando subir e olhar todo mundo com o microfone na sua frente…pare e inspire profundamente mais uma vez e lembre-se: você não vai morrer.

Retorne comigo dezenas de passos. Imaginemos que você está sentado na plateia e aguarda ansiosamente para ser chamado. Você é o palestrante. Talvez nem passe pela sua cabeça naquele momento o motivo de estar ali. Por que foi mesmo que me chamaram? Será que sou a pessoa certa? É. Ou pelo menos deveria ser já que alguém viu algo em você! Momentos antes de levantar você pode lembrar do seu discurso imaginado a exaustão centenas de vezes ou pode (quem sabe) ter deixado tudo ao acaso. Acredite, muitos falam de improviso. Então é chegada a grande hora, o mestre de cerimônias faz uma bela introdução. Ele levanta a sua bola e você ouve o seu nome no fim da grande sentença que valoriza seu trabalho. Ouvir o seu nome e a sequência de palmas é a largada para seus muitos passos da caminhada ao microfone. Retomemos: entre cada passada da platéia até a subida ao palco você terá uns breves segundos. Aqui um lembrete importante: Respire. O sábio palestrante sabe disso e respira e ainda assim vai sentir aquele frio na barriga (que ele nunca vai confessar porque já faz isso tantos anos e hoje deve passar a imagem de um grande mestre Jedi). Tomara que sinta nervosismo, pois sempre é um bom sinal. Nervoso porque se importa. O jovem palestrante vai lutar com seus desafios e temores internos. O pavor de errar e estragar tudo nos primeiros 30 segundos de palestra. O nem tão jovem, mas já experiente pode usar os recursos de antes e que funcionam dentro do esperado, é o palestra da zona de conforto. Pena, pois o risco aqui será fazer mais do mesmo e desagradar. Ou será morno. Falha que o sábio palestrante também pode incorrer. Ser palestrante não é fácil.

Fácil mesmo é respirar.

Ser palestrante é fácil, basta ser chamado. Por que me chamaram mesmo? o que tenho de especial? é bom ter isso resolvido antes de subir no palco. Uma pista: gostamos de você do jeito que você é! “seja você mesmo” foi uma das melhores dicas que já recebi quando comecei a estudar sobre o assunto. Seja você mesmo e não tente ser outra coisa. Se tentar as pessoas logo percebem. Ou quem sabe você possa ser uma versão maior de você mesmo e isso ajuda muito. Só cuidado, se for muito maior pode parecer arrogante e exagerado. Se ensaiar demais ficará robótico e se ensaiar de menos, passará uma imagem desleixada e ainda com  o risco de travar. Ou dar super certo. Não é uma ciência exata. Vai que você tem o dom do improviso?!

Calma palestrante. Respirar acalma.

Ser palestrante é simples, simplesmente complicado. A responsabilidade é enorme. Você fala e os outros ouvem. Se você pausar vai ouvir só a sua respiração. Enquanto os olhinhos brilham fixados em você. E o discurso? você pode ainda indicar algo, um caminho, contar uma história e celebrar seu trabalho. Ou tudo isso e mais um pouco. E tem o relógio correndo e o que fazer com as mãos e andar para lá e para cá ou ficar parado (e lembrar de respirar) e olhar nos olhos das pessoas e fazer pausa dramática ou sair falando sem parar. A decisão é sua.

Só não esqueça de respirar.

O tempo voa. Congela somente nos primeiros instantes, uma eternidade bem clichê. Depois quando você começar a gostar (ou se perder) o tempo vai voar. Olhe os ponteiros. Respeite o relógio de quem vai falar depois de você. Respeite os horários de quem está na plateia. Trate o seu tempo dos outros como gostaria que tratassem o seu. E falando nisso, tempo é relativo: ouvi de um palestrante (famoso) sobre palestras de 20 minutos: sim, é pouco tempo, mas pode ser uma bela desgraça interminável em 20 minutos. Ou 1 hora ou 180 minutos insuportáveis. O contrário também: 20 minutos maravilhosos, 1 hora incrível. Agora 2 horas ou 3 muito boas é muito difícil. Acredito que só no ramo fotográfico tem palestras tão longas. Quem aguenta?

boa sorte palestrante. inspire e expire!

Ser palestrante é um negócio? é. Por aqui não era, mas virou. O mercado de conteúdo no Brasil ganhou força nos últimos 11 anos. Nós da FHOX temos parte nisso assim como outros organizadores de evento. Nos Estados Unidos esse é um mercado já mais do que maduro, alguns dirão saturado. Lá, por sinal, dar palestra já nem quer dizer nada. Workshop idem. Agora tem live em tudo. Nos últimos anos teve até caso de desmascaramento. Dois fotógrafos renomados foram acusados de plágio e acabaram expulsos de eventos importantes. Depois voltaram a palestrar. O brilho se foi.  E no Brasil?  não está da mesma forma agora? creio que sim. Ser palestrante não é algo exclusivo e nem deveria ter tanto status. Sofisticado é ver alguém entregar conteúdo de verdade e encantar (pelo menos tentar) com sua palestra. Aqui vale dizer: não há nada de errado com o negócio de educação na fotografia. Desde que você tenha algo a dizer de forma honesta e que viva de fato de fotografia. Seja generoso. Como é que vai palestrar se nem portfólio ou experiência tem? Como vai palestrar se nem negócio tem?

Palestrar é entreter e informar. Só show é truque e só informação é chato.

Vaidade é combustível. Se for isso então você está com sorte. Basta pegar seu smartphone e palestrar on-line para quem quiser te ver e seguir. Não faltam opções: Instagram, Periscope, YouTube, Snapchat, Facebook e por aí vai. Muita gente tem resolvido a vaidade dessa forma. Muitas vezes vira negócio ou vai que me chamam para palestrar em algum curso on-line ou evento presencial. Acho justo. Além disso, um belíssimo treino (ou para cair na real). A grande questão: quero ensinar, inspirar? ou só quero aparecer e alimentar meu ego. Saber a resposta pode fazer toda a diferença. O fato é que assim como temos fotógrafos profissionais, precisamos de fotógrafos que sejam profissionais ao palestrar. Isso é importante. Não é brincadeira e muito menos egotrip. As pessoas querem te ouvir e querem levar algo de bom ou até podem discordar de você. Mas seja profissional ao palestrar e seja você mesmo. Creio que é possível ser os dois. Ser profissional é levar a série e entregar conteúdo. Simples assim. Palestra não é espetáculo, mas tem gente que acredita nisso. Então que dê show e seja inesquecível. Como ser marcante e dar show todos as vezes? Difícil hein?! Agora, conteúdo você aprende, vive e repassa. É o que eu penso. Existe uma grande diferença entre as duas coisas. O mundo ideal seria ter entretenimento e informação na mesma apresentação. Eu lembrei do TED e nem lá isso ocorre com frequência.

Ser palestrante deveria ser um ato de entrega.

Conte histórias, informe, motive, inspire e se possível abra todos os segredos. Pode até ser um show (eu não gosto!!!) desde que informe e passe algo de útil. Se essa for a estratégia, ótimo. O importante é devolver para o mercado aquilo que te fez chegar naquele palco (de novo, se você não sabe porque está ali…isso é um problema). Mas se você entregar algo de valor fará a diferença não só para os novos talentos, mas todos do ramo. Todos melhoram junto. Temos que ao menos tentar acreditar nesses valores.

Palestra não é homenagem! Antes até costumava ser. Até alguns anos, os palestrantes se apresentavam como se tivessem sendo homenageados. O mercado evoluiu e agora é diferente: noto que estamos passando da fase do palestrante celebridade para aquele que entrega conteúdo de verdade. Demanda dos próprios congressistas. Ainda mais agora que a crise chutou a porta do estúdio e de qualquer negócio fotográfico. Se for para homenagear que seja escancarado e que preste as devidas honras. Precisamos celebrar quem marcou história e fez do mercado o que ele é hoje. Apresentação de homenagem é bacana. No mais, palestrar é informar e se possível entreter junto.

Palestrante! esteja preparado para tudo.

Já vi dar branco no palco. Já vi ataque de enlouquecidos no palco. Já ouvi de brinde que acertou no olho do congressista. Já ouvi de fiascos e já vi fiascos. Lembro dos grandes momentos, tinham emoção e informação. Já vi brigas, bate-bocas e debates raivosos. Já vi nos nossos eventos e vi no dos outros. Eu já falei para muita gente…não posso e nem vou ficar contando…já ouvi críticas e elogios. Aprendi muito mais com o que não tinham gostado. Nunca estamos prontos. Eu tenho uma mania: de ficar balançando para um lado e o outro. Tipo paranaue. Erro, esqueço e gosto de improvisar. Antes ensaiava e me perdia. Palestrar é aprender sempre.

Palestrar é coisa séria. Lembrou de respirar?

Palestrar não é mentir. Isso é óbvio na teoria, mas na prática você pode subir em um palco e dizer o que quiser. Pode inventar coisas sobre o seu negócio e ser outra coisa. Você pode fazer isso em um curso on-line com uma bela tela com tópicos lindos e lindas fotos. Pode fazer isso com frases de efeito e fotos maravilhosas. Isso pode acontecer em um workshop ou congresso. Palestrar é coisa séria. Impacta na vida de quem assiste e se interessou (e pagou) para estar ali te assistindo. Radar anti-picareta – está cada vez melhor. Santo Google. Santo boca a boca. O próprio mercado identifica os charlatões. E ainda existe o que eu chamo de efeito Luciano Huck ou Ivete Sangalo. Daquela pessoa que aparece demais. Ninguém aguenta a mesma cara sempre. Congresso apresenta novidades, reciclagem e debate o presente e o futuro. Palestrante, seja honesto, ético e verdadeiro. É básico, mas muita gente esquece.

Nota de mental de rodapé – Steve Jobs era único. Ele virou padrão de referência na hora de apresentar. Você deve saber que ele usava pouco texto, uma imagem e tinha a regrinha dos três assuntos e o lendário “one more thing”. Mas ele era o Jobs e ensaiava tanto que parecia natural. E olha que até ele teve problemas ao vivo na hora da verdade em lançamento da Apple. Sabe por quê? Porque, como diria o Marcelo Tas, o ao vivo é a casa do capeta.

Texto publicado em março de 2016 no antigo site da FHOX. 

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