Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do curso de Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

As inconfundíveis criações de Rune Guneriessen

por Revista FHOX Publicado há 3 semanas atrás | por Amanda M. P. Leite

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Luminárias, telefones, globos, livros, cadeiras, objetos comuns. Que narrativas inventamos
quando vemos estes objetos deslocados de suas funções? Na tentativa de criar universos fantásticos e inconfundíveis o fotógrafo norueguês Rune Guneriussen trabalha com instalação artística e fotografia. Um artista conceitual que se interessa especialmente por imagens da natureza. Em 2005, Guneriussen² passou a compor cenários entre paisagens naturais e objetos cotidianos. O estilo escultural expõe desde então diferentes histórias e narrativas. Para ele, não importa o tempo que cada cenário levará até ficar pronto, o mais importante é alcançar o encantamento, algo de magnífico na imagem. Uma característica peculiar é que sua obra é exclusivamente pensada para o local da captura, ou seja, depois que a fotografia é realizada toda a instalação é desmontada restando apenas registros do que aconteceu.

Nas instalações imagéticas de Guneriussen somos atravessados pela noção de fantástico.
Adentramos facilmente o mundo do “faz-de-conta”, habitamos paisagens incomuns, ativamos em nós memórias, fabulações. Guneriussen propositalmente altera o ambiente para criar uma atmosfera diferenciada, talvez mais envolvente, cuja finalidade seja estimular o imaginário do leitor. Uma trilha qualquer, o crepúsculo, o amanhecer… O que diríamos se encontrássemos pendurados em troncos de árvores alguns abajures? E se avistássemos globos terrestres iluminados e distribuídos em meio a blocos de neve? Talvez estranhássemos ver aparelhos telefônicos enfileirados prestes a saltarem ao mar ou pudéssemos igualmente indagar um rio de livros que corre entre rochas em direção ao mar.

87c13cb9833a9f497a43f1ac98b01e22Na fotografia a cena não é a coisa mais importante, mas os efeitos que ela produz. Na obra de Guneriussen, nossos pensamentos se voltam para a escolha dos objetos, o horário de cada captura, o estilo que o artista adota para compor e fotografar. A escolha do lusco-fusco, a repetição, a perspectiva, os artefatos, a natureza são subsídios basilares para suas composições. O desafio de buscar arte e magia na floresta move o fotógrafo a se enveredar pelas matas em busca de panoramas insólitos. A realização de suas capturas pode levar semanas, além de exigir do artista e de sua equipe, muitos exercícios e experimentações. Faz parte do processo criativo idealizar as instalações. Aqui, aparentemente a fotografia pode ser a parte “mais fácil” no jogo de composição e montagem.

Nas instalações de Guneriussen somos convidados a pensar a vida e seus mistérios através da
imagem. A arte tem o dever de intrigar nossa própria existência. Neste caso, é a fotografia (ou a ficção) que abre fissuras e amplia a possibilidade de se pensar e se afetar por ela. Tomadas por outros olhares as composições fotográficas conservam-se a si mesmas, seja com saltos e movimentos ou mesmo na presença de um vazio, estas fotografias atravessam sentidos, pois “mesmo o vazio é uma sensação, toda sensação se compõe com o vazio” (DELEUZE e GUATARRI, 1992, p. 215).

RG-Its-common-knowledgeUm dado interessante na obra de Guneriussen é que a interação do público se dá exclusivamente pela fotografia impressa, exibida em exposições. O fotógrafo busca um local inóspito e de difícil acesso para conceber seus projetos. Após capturar as imagens, o artista desinstala as esculturas e permanece apenas com os registros de seu trabalho. Poesia em meio à natureza ou em outras palavras, arte. Estamos diante de fotografias artísticas com estéticas e concepções apuradas. Fotografias que se conservarão e guardarão com elas narrativas, questionamentos.

Uma vez que as fotografias têm sido pensadas e projetadas para provocar sensações, indagar se é possível compor uma fotografia e separá-la dos perceptos e afectos de quem a compõe é algo interessante. “Não estamos no mundo, tornamo-nos com o mundo, nós nos tornamos, contemplando-o. Tudo é visão, devir” (DELEUZE e GUATARRI, 1992, p. 220). Se o que vemos consegue nos afetar, podemos ser atravessados pela cena, pelos elementos contidos na ficção. O sol, as roupas, os gestos, as expressões, os objetos, as contradições e uma gama variada de detalhes não fazem da fotografia uma coisa simples, antes a deslocam da morte que captura o acontecimento para a vida cujas sensações e sentidos permitem refletir sobre elementos, tempos e espaços capturados.

cvr-cold-comfort-2010-edition-of-5-1-125cmx200cm-c-printaluminiumO fotógrafo-artista compõe afectos, cria afectos, mostra afectos em suas invenções. Não só o fotógrafo é atravessado pelo detalhe como também o leitor é capturado pela composição. A captura (conhecida ou inédita) faz emanar sensações e sentidos indeterminados. Para Deleuze e Guatarri (1992, p. 227) […] os grandes afectos criadores podem se encadear ou derivar, em compostos de sensações que se transformam, vibram, se enlaçam ou se fendem: são estes seres de sensação que dão conta da relação do artista com o público […] o artista acrescenta sempre novas variedades ao mundo. Os seres da sensação são variedades, como os seres de conceitos são variações e os seres de função são variáveis […].

Sabemos que a arte pode colidir com a rotina, interromper os gestos do cotidiano. Tanto as instalações quanto as intervenções urbanas tendem a tencionar as nossas convicções a partir de uma cena na intenção de deslocar-nos (corporal e mentalmente) para outras esferas. O movimento da arte tem sido elevar o nosso pensamento a outro grau, talvez mais crítico, mais livre, mais leve.

Poderíamos continuar pensando muitas coisas com a produção do formidável fotógrafo Rune Guneriessen, mas aqui não quero deixar escapar o tempo que faz a obra durar. Falo do tempo complexo, emanado de perceptos e afectos que promove a fotografia à eternidade. Tempo capaz de encontrar perceptos num conjunto de percepções e afectos num contíguo de sensações e devires, que independem da pessoa que os sente. A fotografia, portanto, lança afectos e tem o desafio de nos fazer ver. Ver não tem ligação direta com os olhos, não significa necessariamente percorrer as coisas que estão estampadas nas fotos, mas alcançar o cheiro, o som, o silêncio, a música, a poesia, a textura, o inimaginável…

Referências Bibliográficas
DELEUZE, G. e GUATTARI, F. O que é a Filosofia? Tradução: Bento Prado Jr e Alberto Alonso
Munoz. São Paulo, SP: Editora 34, 1992.
LEITE, Amanda M. P. Fotografia para ver e pensar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa
de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina, 2016. Disponível em: > https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/167738?show=full>

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